BC quer monitorar operações de desconto com recebíveis de credenciadoras

A preocupação da autoridade monetária é entender a nova dinâmica que passou a existir nesse mercado, que movimenta bilhões de reais

Altamiro Silva Júnior, da Agência Estado,

21 de outubro de 2010 | 15h49

O Banco Central pretende monitorar de perto as operações de desconto de recebíveis que as credenciadoras fazem para os lojistas, antecipando receitas futuras com as transações feitas nos cartões de crédito e débito. A preocupação da autoridade monetária é entender a nova dinâmica que passou a existir nesse mercado, que movimenta bilhões de reais, desde o fim da exclusividade no credenciamento, em 1º de julho. "Queremos entender melhor como o sistema está funcionando", afirma o consultor de operações bancárias e do sistema de pagamentos do BC, Mardilson Queiroz.

Com o fim da exclusividade, o próprio mercado de cartões criou uma "central de travas de domicílios bancários" na Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP). Nessa central, as credenciadoras Cielo e Redecard passam as informações bancárias de seus clientes, fundamentais para uma operação de antecipação de recebível. O dado mais importante é em qual banco vai cair o crédito das transações com cartões. É com base nesse fluxo de informações que as credenciadoras conseguem prever o quanto de receita vai entrar nos próximos meses para o lojista e, assim, antecipar recebíveis.

Quando havia exclusividade, as próprias credenciadoras centralizavam essas informações. Um terminal da Cielo só passava o cartão da Visa e o da Redecard, os cartões da MasterCard. Com isso, as próprias credenciadoras travavam com os comerciantes o domicílio bancário. Com o fim da exclusividade, um terminal começou a ler vários cartões e, assim, ficou mais complicado ter o controle desse domicílio. Por isso, as próprias empresas do setor decidiram centralizar tudo na CIP.

"Essa central garante que os comerciantes não percam o acesso ao crédito com o fim da exclusividade, pois as informações ficam centralizadas", afirma Marcelo Noronha, diretor da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).

Reclamação

Há cerca de dois meses, o BC recebeu queixa de um comerciante de São José dos Campos (SP) informando que os bancos e as credenciadoras não queriam mais antecipar recebíveis para ele, pois não tinham mais controle do fluxo futuro de receitas das transações com cartões. O BC investigou e descobriu que esse fluxo havia se perdido, justamente por conta do fim da exclusividade. Por isso, agora quer entender melhor como está funcionando a "central de travas" na CIP.

"O fim da exclusividade exigiu tantas mudanças e ajustes que o mercado acabou percebendo muito tarde a necessidade de criar essa central de travas", diz Queiroz. Segundo o executivo do BC, foi somente este caso até agora. Mas o problema foi suficiente para acender a luz amarela na autoridade monetária.

A recomendação do governo é que o setor de cartões tenha uma central de liquidação independente. O prazo dado para isso é de até dois anos. A tendência é que tudo seja centralizado na CIP, câmara criada pelos bancos. A Visa e a MasterCard já aderiram. O Santander, primeiro banco a entrar no mercado de credenciamento, também faz a liquidação na CIP. A Cielo e a Redecard devem fazer o mesmo caminho, pois ainda realizam a liquidação internamente. 

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