BC realiza a custo zero uma hábil operação de câmbio

Neste final de ano, o Banco Central (BC) precisa acompanhar com grande atenção a taxa cambial: é um período em que a necessidade de divisas aumenta, as empresas estrangeiras antecipam suas remessas de lucros e dividendos e o efeito é a valorização do dólar. Neste ano, em particular, em que as autoridades monetárias lutam para domar pressões inflacionárias, é preciso evitar que maior desvalorização da moeda nacional lance lenha na fogueira dos preços.

O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h07

A oferta de dólares realizada anteontem pelo BC conseguiu, a custo zero, convencer o mercado de que poderá, se necessário, dispor de divisas. E conseguiu também evitar uma desvalorização do real.

Desde março de 2009 o BC não oferecia dólares, limitando-se a comprar o excedente, o saldo positivo das operações de câmbio - compra, aliás, cara para o BC, cujas reservas eram colocadas em títulos do governo norte-americano, cuja remuneração é apenas simbólica. E, para compensar o excesso de liquidez resultante dessas compras de divisas, vendia ao mercado títulos cuja remuneração é elevada.

É preciso ter em mente essas operações para entender o significado das que o BC realizou anteontem: ofereceu dólares num momento em que as empresas, seja para financiar suas exportações, seja para remeter lucros e dividendos para o exterior, estão enfrentando dificuldades na captação de recursos, e a um preço elevado. Com o leilão, o BC, como havia anunciado o ministro da Fazenda, deu uma mensagem de tranquilidade: não faltarão dólares neste final de ano para as operações autorizadas. Com US$ 350 bilhões de reservas, o BC pode oferecer sem dificuldades esses dólares.

Todavia, tinha de levar em conta o custo da constituição dessas reservas. No leilão, nenhum dos interessados ofereceu um preço considerado justo pelo BC, que não podia aceitar um preço muito abaixo do custo. Assim, na prática, foi uma oferta que os interessados não puderam aproveitar, mas teve a virtude de levar o mercado a perceber que, em caso de necessidade, esses dólares estão disponíveis.

A outra vantagem do leilão foi interromper a marcha da desvalorização do real, que tinha chegado a R$ 1,86. A taxa cambial caiu e parece ter conservado essa tendência ontem, evitando, pois, a formação de uma expectativa inflacionária que neste final de ano seria intolerável.

Ou seja, com uma única bala, o BC atingiu dois alvos: tranquilizar o mercado e conter a inflação - sem nenhum custo.

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