Andre Dusek/AE- 6/1/2011
Andre Dusek/AE- 6/1/2011

BC reconhece piora no controle da inflação

Apesar do tom negativo, instituição acredita que o aumento dos preços vai reagir positivamente com a recente alta na taxa básica de juros

Fernando Nakagawa e Fabio Graner, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2011 | 00h00

O Banco Central reconheceu que o cenário para a inflação piorou desde dezembro. Na ata da primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) liderada por Alexandre Tombini, a instituição admite que a inflação subiu e está acima do centro da meta, mas o BC acredita que a trajetória dos preços deve reagir positivamente à alta do juro.

Entre analistas, há dúvidas sobre essa leitura e o pessimismo com a inflação segue forte, com muitos cobrando uma dosagem mais forte da taxa de juros. Para explicar a subida do juro básico da economia, que passou de 10,75% para 11,25% na semana passada, o Copom subiu o tom na comparação com dezembro ao falar da inflação na ata da reunião divulgada ontem. No texto, os diretores do BC chamam atenção para o aumento dos preços dos alimentos, o maior do uso da capacidade instalada e o ganho de renda dos trabalhadores.

"No último trimestre do ano passado, a inflação foi forte e negativamente influenciada pela dinâmica dos preços de alimentos", reconhece o BC, ao comentar que essa evolução gera inércia nos índices e piora as expectativas dos analistas para a inflação futura.

Salários. Além disso, os diretores do BC citam como "relevantes" os riscos gerados pelo descompasso entre o crescimento acelerado da demanda interna e a expansão mais lenta da oferta de mercadorias e serviços. A diferença de ritmo eleva o uso da capacidade da economia e favorece os aumentos. A ata cita ainda que um dos riscos é que, diante de eventual falta de mão de obra, sejam concedidos aumentos reais de salário para conquistar empregados.

Para o BC, um "risco importante" é que a renda suba mais que a produtividade, o que reforça o aumento da demanda e o risco de alta ainda maior da inflação.

O tom adotado pelo BC foi menos pessimista que o esperado. Nos últimos dias, o mercado apostava em um endurecimento do discurso após a persistente deterioração das previsões para a inflação em 2011 e 2012 e, mais recentemente, dos índices de preço - como o IPCA-15 - que apresentam alta maior que as piores previsões. "A avaliação do BC é mais tranquila que a do mercado, porque o órgão acredita que será bem sucedido no controle da inflação com as medidas macroprudenciais, o aumento do juro e um prometido esforço fiscal", diz a economista-chefe do Banco Fibra, Maristela Ansanelli.

Discordância. O mercado, porém, não concorda. Durante toda a quinta-feira, analistas questionaram se as variáveis usadas pelo BC serão efetivamente cumpridas. Na ata, o Copom afirma, por exemplo, que trabalha com a hipótese de que o governo vai economizar o equivalente a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) para pagar juros da dívida, o chamado superávit primário. Isso ajudaria, de acordo com o BC, a reduzir o ritmo da atividade econômica e o tamanho da dívida pública em relação ao PIB.

Sem alarmismo na ata do Copom, perdeu força a aposta de que o comitê poderia ter um aumento maior do juro na próxima reunião. Na maioria das instituições, foi mantida a previsão de que a Selic deve subir 0,50 ponto nos encontros de março e abril.

Mas, para que a inflação seja controlada, cresce a percepção de que a equipe econômica poderá, em breve, anunciar novas medidas macroprudenciais para tentar conter a alta da demanda interna e, assim, segurar a inflação.

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