BC reduz projeção de déficit externo

Crise europeia leva BC a cortar previsão de remessas de lucros e empréstimos externos

FERNANDO NAKAGAWA, CÉLIA FROUFE/ BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2012 | 03h06

A crise mudou os prognósticos do Banco Central para as contas externas. O primeiro efeito da deterioração global é vista no crédito, já que a seletividade de bancos deve diminuir o volume de novos empréstimos internacionais em 99,8% na comparação com 2011.

Além disso, a economia mais lenta vai diminuir as remessas de lucros por multinacionais e o déficit em transações correntes. Ainda que lentamente, o quadro mostra que o Brasil começa a reagir à crise em um movimento que guarda semelhanças com o que aconteceu em 2008.

O efeito mais evidente da crise está na oferta de crédito externo para empresas e bancos. Dados divulgados ontem mostram que o volume de novos financiamentos com mais de um ano deve somar US$ 100 milhões em 2012.

Antes, a previsão era de US$ 6,9 bilhões. O número mostra drástica mudança ante o que aconteceu em 2011, quando o volume de novos financiamentos alcançou o recorde de US$ 47 bilhões.

"Isso não representa o fechamento do mercado externo. Em 2011, o fluxo foi muito elevado. Como as empresas estão capitalizadas, é natural que esses agentes adiem captações para períodos mais favoráveis", minimizou o chefe do departamento econômico do BC, Túlio Maciel. Em maio, novos empréstimos foram suficientes para cobrir apenas 79% das dívidas que venceram.

Sem problema. Maciel sustenta, porém, que não há problema, já que as empresas devem conseguir, pelo menos, renovar 100% das dívidas. Até agora, o BC acreditava que havia espaço para aumentar o volume de empréstimos no exterior.

O economista da Rosenberg & Associados Rafael Bistafa salientou que os empréstimos de médio e longo prazos do setor privado já voltaram aos mesmos níveis baixos verificados no início da crise de 2008, quando ocorreu o choque de crédito. "Esse número é um indicativo da restrição de financiamento e já mostra piora, mas a situação ainda não é alarmante", considerou.

Outro efeito está na remessa de lucros. O BC prevê que multinacionais enviarão US$ 28 bilhões às sedes na forma de dividendos no ano. Antes, a previsão era US$ 10 bilhões maior. A queda mostra que o papel de "máquina de lucros" exercido pelo Brasil nos últimos anos perdeu força. Maciel explicou que a economia mais fraca diminui a lucratividade das companhias e o dólar mais alto encarece as remessas.

Por isso, o número deve ser menor.

A atividade econômica mais fraca também deve diminuir o déficit em transações correntes do Brasil - saldo das transferências e pagamentos entre o Brasil e exterior. A previsão de saldo negativo em 2012 caiu US$ 12 bilhões, para US$ 56 bilhões.

Apesar da crise, o BC manteve a previsão de que a entrada de Investimento Estrangeiro Direto (IED) deve somar US$ 50 bilhões no ano.

Segundo Maciel, são projetos com "horizonte mais amplo" e que não reagem tão rapidamente ao noticiário. Dessa forma, o ingresso de investimento produtivo, que seria suficiente para cobrir 73% do déficit previsto anteriormente, passa a cobrir 89% do saldo negativo previsto agora.

Mesmo com o dólar a R$ 2, a conta de turismo internacional segue com saldos crescentes. Em maio, o déficit de viagens somou US$ 1,29 bilhão, valor 14% maior que o visto em igual mês do ano passado. O aumento das viagens, porém, estaria com os dias contatos. "Com a alta do dólar e o encarecimento das despesas, a expectativa é de que o fluxo de viagens venha a se moderar", disse Maciel, ao comentar que o efeito será mais evidente em um prazo de três meses.

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