Beto Nociti/Banco Central
Beto Nociti/Banco Central

BC reduz Selic para 10,25% e indica corte menor para julho

Corte no juro básico manteve o ritmo de queda em 1 ponto porcentual com perspectiva de inflação menor em 2017; essa é a sexta queda seguida e o menor patamar para a taxa Selic desde novembro de 2013

Fabrício de Castro, Fernando Nakagawa e André Ítalo Rocha, Broadcast

31 Maio 2017 | 18h03

BRASÍLIA - Em meio às dúvidas sobre o futuro do governo Michel Temer, o Banco Central reduziu a Selic (os juros básicos da economia) em 1 ponto porcentual, de 11,25% para 10,25% ao ano. É a menor taxa desde o fim de 2013. A decisão era largamente esperada pelo mercado financeiro, que via pouco espaço para uma redução maior dos juros em função da crise política. Só que, além de se mostrar cauteloso agora, no novo cenário político, o BC já indicou que pretende promover um corte ainda menor de juros em julho.

Até o encontro de hoje, a leitura dos economistas do mercado era de que, com as reformas trabalhista e previdenciária em risco no Congresso, o BC precisaria ser, de fato, mais conservador. De um total de 57 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, 47 esperavam corte de 1 ponto porcentual da Selic, oito projetavam corte menor, de 0,75 ponto porcentual, e apenas duas mantinham expectativa por redução de 1,25 ponto porcentual.

 

 

Foi exatamente a crise política, que afeta as reformas, o principal argumento usado pelo BC para justificar o corte de apenas 1 ponto porcentual da Selic. No comunicado que acompanhou a decisão, os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) afirmaram que o "fator de risco principal" é a elevação da incerteza "sobre a velocidade do processo de reformas e ajustes na economia".

Por trás disso está a avaliação de que, caso a crise política inviabilize a aprovação das reformas no Congresso, o espaço para uma Selic mais baixa diminui. A preocupação do BC com os efeitos negativos da crise política sobre o andamento das reformas fez o Copom, inclusive, já sinalizar um corte de apenas 0,75 ponto porcentual da Selic em julho - e não mais de 1 ponto porcentual. "Em função do cenário básico e do atual balanço de riscos, o Copom entende que uma redução moderada do ritmo de flexibilização monetária em relação ao ritmo adotado hoje deve se mostrar adequada em sua próxima reunião", disse o BC.

FUNDOS DE RENDA FIXA MANTÊM ATRATIVIDADE MESMO COM QUEDA DA SELIC

No comunicado da decisão, a palavra mais repetida foi "incerteza", mencionada por cinco vezes. O termo "incertas" foi citado uma vez, em referência às estimativas para os juros.

Essa incerteza trazida pelas delações de executivos da JBS, que colocam em risco a continuidade de Michel Temer na Presidência, pesou mais na decisão do comitê que o cenário para a inflação e para a atividade no Brasil. No comunicado, o BC indicou que as dúvidas ligadas ao futuro das reformas podem ter impacto negativo sobre a atividade econômica. Ao mesmo tempo, registrou que o comportamento da inflação permanece favorável, embora seja importante acompanhar os impactos da crise política.

BANCOS REDUZEM JUROS APÓS CORTE NA SELIC

Nas projeções para a inflação no chamado cenário de mercado, que utiliza estimativas variáveis para câmbio e juros, o BC informou que a taxa projetada para 2017 está em 4,0% e, para 2018, em 4,6%. A meta para ambos os anos é de 4,5%, com tolerância de 1,5 ponto porcentual (inflação entre 3,0% e 6,0%).

"O ponto chave do comunicado é que, para o BC, as reformas não vão conseguir avançar de forma substancial", disse o economista Thiago Curado, da 4E Consultores. "Com ou sem Temer, cai muito a probabilidade de o governo conseguir emplacar as reformas como havia sido antecipado", acrescentou. Para ele, o corte de juros será de apenas 0,75 ponto porcentual em julho.

Juro real. Mesmo com o corte de 1 ponto porcentual da Selic, o Brasil segue em posição desfavorável no ranking de maiores taxas reais (descontada a inflação) do mundo. Levantamento do site MoneYou e da Infinity Asset Management mostra que, numa lista com os 40 países mais relevantes no mercado global de renda fixa, o Brasil tem o segundo juro real mais elevado, de 4,30% ao ano. Apenas a Rússia, com 4,57%, tem situação pior que a do Brasil.

 

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