FILIPE ARAUJO/ESTADÃO
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BC se incomoda com críticas e ataca economista

Pastore criticou Tombini por causa da inflação; logo em seguida, foi rebatido com a lembrança dos índices de sua época no banco

Célia Froufe, Gustavo Porto, O Estado de S. Paulo

20 de março de 2015 | 22h11

O ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore criticou na quinta-feira, em um seminário, a condução da política monetária pelo BC e a trajetória da inflação. Duas horas depois de os comentários serem noticiados pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, o BC reagiu de maneira pouco comum: soltou uma nota para criticar a gestão de Pastore à frente do BC entre agosto de 1983 e agosto de 1985.

As declarações de Pastore foram feitas em um debate em Ribeirão Preto, na quinta-feira. “Tombini fala em 4,5% de inflação desde que chegou ao BC e nunca entregou (...) A inflação de 4,5% em 2016 só viria com estresse, alta nos juros e mais recessão. O governo precisaria estabelecer uma trajetória para chegar (à meta) e dar credibilidade ao regime de metas”, disse o economista.

Duas horas depois, o BC respondeu, por meio da assessoria de imprensa, lembrando o comportamento da inflação na época em que Pastore presidiu a instituição. A inflação acumulada em 12 meses passou de 134,69% para 224,60%.

Incomodado com as referências do Banco Central à sua gestão, Pastore voltou à carga em suas críticas ao não cumprimento da meta inflacionária. Em entrevista nesta sexta-feira, o economista disse que o problema atual é também de falta de credibilidade no mercado. E disparou: “Eu reafirmo o que disse ontem (quinta-feira): ele (Tombini) nunca cumpriu a meta. A credibilidade do doutor Tombini é baixa”, afirmou.

“Nunca me escondi atrás de nota à imprensa para desrespeitar quem está ou esteve no Banco Central”, disse Pastore. O economista afirmou ainda nunca ter escondido ou mentido sobre seus feitos no BC.

Brasil ‘quebrado’. O economista disse que chegou ao BC com o Brasil “quebrado”, com reservas negativas, pelo conceito de caixa, em US$ 2 bilhões, e com centralização cambial - o que significava que o BC retinha dólares porque não possuía moeda para enviar ao exterior. “O Brasil teve sucesso em vários pontos desta saga. Mas deixei o Banco Central com o gosto amargo de não ter conseguido e não ter podido controlar a inflação”, afirmou.

Pastore disse ainda não se envergonhar de ter visto a inflação subir em sua gestão. Segundo ele, anos depois, procurou entender como funcionava o mecanismo de alta de preços no Brasil e chegou a escrever um livro sobre o assunto.

Na avaliação do economista, o Brasil conseguiu, posteriormente, dominar a técnica de combate à inflação. “O doutor Tombini deveria saber que eu nunca tive uma meta de inflação para perseguir. E que a crise cambial que era o problema agudo daquele momento.”

Pastore se sentiu ofendido pela reação do Banco Central e disse não ter encontrado motivos para isso. “Faço votos de que o doutor Tombini tenha caído em si e que possa, no futuro, escrever um livro sobre os percalços pelos quais passou enquanto esteve no Banco Central”, disse o ex-presidente do BC.

Apesar de ter admitido que a inflação aumentou durante seu período à frente do BC, Pastore disse que isso não o desqualifica para fazer comentários sobre a política monetária hoje. “Não é comentário do doutor Tombini que vai me desqualificar.” 

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