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BC tenta vencer batalha das expectativas

Mesmo com alta dos juros, analistas continuam projetando taxas de inflação para 2013 e 2014 muito acima do centro da meta, de 4,5%

FÁBIO ALVES, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h05

O Banco Central subirá provavelmente a taxa Selic pela terceira reunião consecutiva do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para terça-feira e quarta-feira, mas seguirá perdendo a batalha pelo controle das expectativas inflacionárias, em razão da desconfiança com a política fiscal do governo e também da descrença em relação à eficácia da política monetária, dizem economistas.

"Mesmo subindo os juros até 9,25%, por exemplo, o BC não conseguirá ancorar as expectativas inflacionárias para próximo da meta", diz Fernando Genta, economista-chefe da MCM Consultores. "Apesar de um ciclo total de aperto monetário de 2 pontos porcentuais, como o que esperamos, as expectativas de inflação deverão ficar entre 5,5% e 5,8%."

Na percepção de vários analistas, o objetivo da política monetária neste momento não é mais trazer as expectativas inflacionárias de volta ao centro da meta de 4,5%, mas impedir que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) supere o teto da meta, de 6,5%.

Para fazer a inflação convergir para o centro da meta, o BC teria de promover um aperto bem mais forte dos juros, o que poderia afetar negativamente o já baixo crescimento da economia. Por outro lado, a desvalorização do real deve pressionar mais os índices de preços.

Diante do dilema de controlar a inflação e minimizar o impacto sobre o crescimento, os analistas não creem que o BC vá acelerar o ritmo de aperto monetário. "E, em 2014, o Banco Central terá uma tarefa inglória devido ao calendário eleitoral," ressalta Genta. "Não há como dissociar mais a politização da política monetária."

De 91 instituições pesquisadas pelo serviço AE Projeções, do Broadcast, analistas de 88 delas preveem uma alta de 0,50 ponto da taxa Selic na reunião do Copom deste mês e apenas três instituições esperam uma alta maior, de 0,75 ponto. Para o final de 2013, num levantamento com 86 instituições, as estimativas para juro vão de 8,75% a 10,25%, com a mediana em 9,25%. Para o final de 2014, a Selic estimada vai de 8% a 12%, com mediana de 9,5%.

Poder de fogo. O comportamento das projeções para o IPCA desde que o BC deu início ao ciclo atual de alta de juros reflete a perda do poder de fogo da política monetária em meio ao mau humor de analistas e investidores em relação à dinâmica dos gastos do governo e da política econômica em geral.

Isso porque, segundo os analistas, uma política fiscal mais frouxa acaba neutralizando o efeito da alta de juros na contenção da demanda e, por tabela, nos reajustes de preços de bens e serviços.

No boletim Focus divulgado pelo BC imediatamente antes da elevação da taxa Selic em 0,25 ponto no dia 17 de abril, os analistas esperavam um IPCA de 5,68% para 2013 e de 5,7% em 2014. No dia 29 de maio, o Copom surpreendeu o mercado subindo os juros em 0,5 ponto, mais do que o esperado, e mesmo assim as projeções para o IPCA seguiram piorando. No mais recente boletim Focus, a estimativa para a inflação subiu para 5,87% em 2013 e para 5,88% em 2014.

"Há duas forças opostas neste momento: de um lado, a alta dos juros e, do outro, a desaceleração da economia", diz Carlos Kawall, economista-chefe do banco J. Safra. Para ele, o trabalho do BC está mais difícil por conta da perda de confiança com a política econômica e, em particular, a falta de apoio por parte da política fiscal. Ele projeta expectativas inflacionárias ao redor de 6%, mesmo prevendo uma taxa Selic a 9,5% ao final do ciclo de aperto monetário.

Por outro lado, destacou Kawall, há indícios de que a atividade econômica iniciou o terceiro trimestre sofrendo com um grau de confiança mais baixo dos empresários e dos consumidores. Para agravar, o cenário externo adverso, com a retirada dos estímulos monetários pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) aumenta o estresse, com valorização maior do dólar diante de outras moedas, e gera um aperto das condições financeiras para a maioria dos países.

"Só que isso no Brasil está ocorrendo numa maior magnitude do que em outros lugares, mostrando preocupação maior com a credibilidade da política econômica e a deterioração das contas públicas", diz Kawall. "Isso explica o fato de o BC estar subindo a Selic, além de ter surpreendido o mercado na última reunião do Copom, e de os juros de longo prazo estarem subindo ainda mais, tornando-se um indicador de percepção de aumento de risco macroeconômico do Brasil", diz

"Um aumento da Selic para 10% ou 11% provavelmente teria um efeito positivo sobre as expectativas de inflação do mercado, e poderia levar a uma redução das taxas (de juros) mais longas", diz o economista-chefe para Brasil do Deutsche Bank, José Carlos Faria. Ele ainda prevê uma Selic de 9,25% ao final do ciclo de aperto monetário. "Como as taxas de juros reais brasileiras caíram abaixo do que consideramos ser a taxa real neutra - por volta de 4% -, existe o risco de que o BC tenha de elevar a Selic para algo em torno de 10%, sobretudo se a taxa de câmbio continuar depreciando."

Na opinião de Faria, o aumento das taxas de juros de longo prazo tende a encarecer o capital e reduzir o crescimento da economia. "Uma elevação ainda maior das taxas de juros dos títulos do Tesouro americano devido às expectativas de reversão do relaxamento quantitativo poderia levar a um aumento das taxas mais longas aqui. Por outro lado, algum anúncio crível de mudança para uma política fiscal doméstica mais austera poderia ter o efeito inverso, reduzindo as taxas longas."

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