BC terá estratégia para garantir mais dólares a empresas

Medida a ser adotada agora prevê oferta de dólares em espécie para atender empresas que enviam lucros e dividendos ao exterior

Célia Froufe, Victor Martins, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2014 | 02h01

BRASÍLIA - As intervenções do Banco Central no mercado de câmbio por meio da venda de papéis atrelados à moeda americana - o chamado swap cambial - completaram ontem um ano. O governo assegura ainda ter arsenal, até quando houver demanda do mercado, sem estabelecer um teto predeterminado de recursos. Mas o programa, avaliado internamente como "um sucesso", deve ganhar reforço de outro tipo de operação, voltada para a oferta de dólares em espécie nos próximos meses.

O BC lança mão desse fôlego extra toda vez que enxerga a necessidade dos agentes do mercado por dinheiro vivo. E agora, no segundo semestre, as companhias entrarão na temporada sazonal de remessas de lucros e dividendos ao exterior, quando a moeda fica mais escassa. Ao atuar nessas operações, que equivalem à compra de dólares no mercado futuro, a instituição divide parte dos riscos com o setor produtivo e financeiro.

Desde o início da chamada "ração diária" de proteção cambial, em 22 de agosto do ano passado, a posição do BC em swaps passou de US$ 41 bilhões para US$ 93,2 bilhões. Dada a magnitude das operações, o desmonte será pouco a pouco. "Uma posição desse tamanho é preciso ser desfeita aos poucos, sem pressa", disse uma fonte do governo ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado.

O programa, anunciado em agosto de 2013, teria duração pelo menos até o fim do ano passado. No encerramento do ano, entretanto, o BC considerou que as condições do mercado ainda exigiam a continuidade dos leilões e decidiu estender a oferta por mais um ano.

No mercado, há dúvidas sobre um teto, que equivaleria a um quarto das reservas internacionais, hoje próximas de US$ 380 bilhões. No governo, esse limite é visto como um "mito". A avaliação interna é que o BC tem "musculatura suficiente" para se expor. No primeiro semestre deste ano, a autarquia até lucrou com a estratégia dos swaps cambiais. Embolsou a cifra recorde de R$ 20,2 bilhões. Para os críticos, que apontam desperdício de munição em tempos de relativa calmaria, a resposta do governo é que o "relaxamento" do mercado ocorreu justamente porque o BC atuou.

A opção pelos swaps ocorreu em momento de estresse do mercado, quando Ben Bernanke, então presidente do Federal Reserve (o BC americano), anunciou o fim do chamado "quantative easing" - forma de irrigar a economia americana, principalmente com crédito, mediante taxas de juros baixas.

Os negócios com a moeda ficaram instáveis e o dólar estava cotado a R$ 2,40 às vésperas do início do programa. Além de trazer tranquilidade aos agentes, o governo quis atrair recursos ao Brasil. Neste ano, porém, até o dia 20 de agosto, o fluxo está positivo em pouco mais de US$ 3 bilhões - no mesmo período de 2013, o saldo era superior a US$ 8 bilhões.

Na avaliação de uma fonte da equipe econômica, certamente essa conta seria pior se o governo não tivesse agido. A dúvida dos economistas, agora, é sobre os limites do BC para levar o programa adiante. A decisão final não sairá antes das vésperas de 31 de dezembro. Mas o ponto fundamental na decisão é a indicação de que o mercado ainda precisa de mais recursos.

A situação externa, sem dúvida, é um dos pontos-chave para decifrar esse enigma. Mas mudanças isoladas, como a alta do juro americano, por exemplo, não deve ser fator único para a decisão. A equipe econômica entende que, para evitar uma onda negativa nos mercados mundiais, o Fed já vem sinalizando suas ações.

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