BC vai recompor reservas no momento adequado, diz Azevedo

O diretor de Política Monetária do Banco Central, Rodrigo Azevedo, disse hoje que o atual nível de reservas internacionais do País "não é o que o Brasil precisa para ter um grau de segurança" adequado em relação a potenciais choques externos. Assim, com "a volta das condições adequadas", o BC estará de volta ao mercado para ampliar essas reservas.Ao ser indagado sobre os fatores que determinariam as condições adequadas para a ação do BC, Azevedo disse apenas que a instituição está sempre analisando as condições de mercado, em busca de um momento adequado. Na palestra que fez na abertura do 3 Congresso Anbid de Fundos de Investimento, Azevedo disse que a programação do BC para 2005 prevê um hiato financeiro de US$ 12,3 bilhões. Até maio, a autoridade monetária já comprou US$ 10,2 bilhões.Dívida cambialO diretor do Banco Central, disse que, também "com condições de mercado adequadas", a intenção da instituição é continuar a redução da parcela da dívida interna indexada ao câmbio, "indo além do previsto no cronograma". Segundo ele, essa mudança de perfil que começou em 2003, foi intensificada no ano passado e teve um esforço adicional nestes primeiros meses de 2005. Em 2004, a redução foi de US$ 25,7 bi, contra US$ 9,4 bi no ano anterior. Neste ano, segundo o diretor de Política Monetária do BC, a redução já foi de US$ 14,3 bilhões. "A idéia é de que, em paralelo ao programa de acumulação de reservas (internacionais), temos um programa de redução dos passivos cambiais do setor público. Tivemos um processo de aceleração dos vencimentos dos passivos. Fizemos isso em fevereiro e em março e continuaremos a olhar as condições de mercado", explicou Azevedo.Segundo ele, a redução da dívida cambial é importante porque diminui a "sensibilidade" da dívida líquida à variação a taxa de câmbio, o que é um importante fator na dinâmica da dívida pública. Hoje, explicou, a relação entre a dívida pública e o PIB está "menos sensível" à taxa de câmbio e "mais a fatores tradicionais", como taxa de juros, crescimento do PIB e superávit primário. "Saiu o efeito jabuticaba", afirmou o diretor do BC.Dessa forma, ponderou, foi quebrado "o elo direto" entre as contas fiscais e a variação cambial. Azevedo alertou que esse é um importante fator a ser observado quando se avalia o potencial impacto de um choque externo no País.Dívida líquida em relação ao PIBRodrigo Azevedo afirmou que a perspectiva é de continuidade da redução da dívida líquida do setor público em relação ao PIB. "Este é um compromisso desta administração", afirmou, durante o 3º Congresso Anbid de Fundos de Investimento. Ele citou números divulgados ontem pelo BC de que esta relação foi de 50,1% em abril, e a projeção é de que caia abaixo de 50% em maio."A disciplina fiscal passou a ser um valor relevante para a sociedade brasileira, e não só de um governo", afirmou, comemorando particularmente o superávit primário de 5,03% em 12 meses até abril, como "o mais alto que o País já teve". Azevedo citou ainda projeções de mercado de que a relação dívida/PIB pode ficar abaixo de 45% nos próximos cinco anos, mas sem mencionar se esta também é a expectativa do BC. Disse, porém, que o mercado vem revisando a cada ano, desde o final de 2002, sua expectativa para essa relação, apostando cada vez mais em um resultado mais positivo.Desconforto com IPCA acumuladoO diretor de Política Monetária mostrou desconforto com o IPCA acumulado em doze meses até abril. Ao citar a alta de 5,2% (doze meses até maio de 2004) e 8,07% (doze meses até abril deste ano), disse: "Houve uma deterioração importante da inflação, o que justifica em parte a cautela que o BC tem adotado". Segundo ele, a deterioração recente da expectativa de inflação reflete a inflação passada.Analista ouvido pela Agência Estado observou que a inflação acumulada em doze meses até maio de 2004 citada por Azevedo foi a menor registrada em 12 meses no ano desde a desvalorização cambial e implantação do regime de metas, em 1999. O IPCA acumulado em 12 meses até abril deste ano representa, portanto, alta de quase 3 pontos porcentuais em relação à mínima atingida em 2004.Ao ser indagado após a palestra no 3º Congresso Anbid de Fundos de Investimento sobre a evolução da taxa de juros, Azevedo deu uma resposta mais do que genérica. "A avaliação que fizemos é que o histórico de políticas consistentes que vem sido seguido pelo Brasil tem permitido uma redução importante do risco macro do País. Isso se traduz em queda do prêmio de risco futuro e, portanto, a expectativa é que isso leve à continuidade no processo de tendência de queda da taxa de juros real", afirmou.Sobre os comentários do presidente do BNDES, Guido Mantega, de que o investimento será prejudicado se os juros continuarem altos, Azevedo disse que sua avaliação olhava para um horizonte mais amplo, de médio prazo.Regime de metasAzevedo fez uma defesa enfática do regime de metas de inflação que, segundo ele, já foi testado "em condições extremas" e mostrou bons resultados. Após momentos de "desvios e de readequação" das metas, o regime tem sido "um importante guia para as expectativas de inflação", ao conseguir coordenar as expectativas dos agentes financeiros.Neste sentido, Azevedo enfatizou a necessidade do "respeito" às metas estabelecidas para aumentar o histórico do regime de metas inflacionárias. Para demonstrar este raciocínio, Azevedo fez uma comparação sobre o comportamento da inflação, do PIB e da taxa de juros nos últimos anos.Mesmo sujeito a choques externos, o diretor do BC ponderou que a inflação média ainda é alta, mas, sob o ponto de vista do desvio padrão, é cadente. Quanto à taxa do PIB, Azevedo disse que a média é mais alta, mas o mais importante é que a variabilidade (desvio padrão) da taxa tem sido mais baixa. Em relação aos juros, segundo ele, tem ocorrido uma redução tanto dos valores médios como sob a ótica do desvio padrão. De acordo com ele, são vantagens advindas da flexibilidade do regime.Choque externoNa palestra desta manhã, o diretor de Política Monetária do Banco Central, enfatizou, em vários momentos, a melhora da economia brasileira para enfrentar "um potencial cenário externo adverso". Mesmo sem analisar diretamente o assunto, ou citar riscos potenciais, Azevedo destacou o "aumento da resistência a choques" que o Brasil tem hoje.Azevedo destacou, por exemplo, a melhora das contas externas brasileiras, não apenas com o aumento do saldo comercial e das contas correntes, como também a elevação "expressiva" da corrente de comércio do País com o resto do mundo. Foi mencionado também o volume crescente de ingresso de investimento estrangeiro direto no País. Outro "indicador saudável", citado por ele, foi a redução da dívida externa do setor privado de médio prazo, que caiu de US$ 105,5 bi no final de 98 para US$ 68 bi em dezembro de 2004.Em outro momento, quando defendeu enfaticamente o regime de metas de inflação, Azevedo citou as vantagens que a flexibilidade desse sistema dá no eventual enfrentamento de choques externos, ao coordenar expectativas.Quando mencionou a disposição do BC de continuar reduzindo a parcela da dívida atrelada à taxa de câmbio, Azevedo voltou a falar sobre condições melhores para enfrentar uma situação externa adversa. Segundo ele, essa nova dinâmica da dívida deve ser levada em conta para analisar o impacto de um potencial choque, já que mudou o mecanismo de transmissão na economia.A última referência feita por Azevedo foi sobre a necessidade de ampliar o nível de reservas internacionais brasileiras, para ampliar a segurança do País frente a eventuais choques internacionais.

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