André Dusek/Estadão
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BC vê mais inflação em 2015 e 2016 e cita incertezas fiscais

Na semana passada, o BC decidiu por unanimidade manter a Selic em 14,25% ao ano, mudando o discurso em relação à convergência da inflação para a meta, que ficou para 2017 

Reuters e Agência Estado

29 Outubro 2015 | 08h54

Atualizado às 12h32

O Banco Central piorou sua previsão para a inflação neste ano e em 2016, afirmando que ambas estão acima do centro da meta - de 4,5% pelo IPCA, com margem de dois pontos porcentuais para mais ou menos -, e reforçou que tem de permanecer vigilante "independentemente do contorno das demais políticas", segundo ata do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada nesta quinta-feira.

O BC passou a ver incertezas na recuperação dos resultados fiscais e na sua composição. Na ata, a instituição inseriu essa avaliação e ponderou que essas incertezas pesam no balanço de riscos, ou seja, a deterioração da política fiscal impactou o cenário de inflação do BC. 

Na semana passada, o BC decidiu por unanimidade manter a Selic em 14,25% ao ano, mudando o discurso em relação à convergência da inflação para o centro da meta. A autoridade monetária deixou claro que o objetivo será alcançado não mais no fim de 2016, mas em 2017, em meio ao cenário de indefinições fiscais e turbulências políticas no País.

Assim como fez logo no comunicado que se seguiu à decisão da semana passada, a diretoria do BC mudou o parágrafo 30 da ata. No lugar de escrever que as decisões futuras de política monetária serão tomadas para assegurar a convergência da inflação para a meta ao final de 2016, os diretores esticaram o prazo para o "horizonte relevante para a política monetária", ou seja, dois anos.

No Relatório Trimestral de Inflação mais recente, divulgado em setembro, a estimativa do BC para o IPCA do ano que vem estava em 5,3% no cenário de referência e em 5,4% no de mercado. Nesse mesmo documento, o BC informou que a chance de estouro da meta do ano que vem era de 20% no cenário de referência e de 22% no de mercado. 

Já no Relatório de Mercado Focus da última segunda-feira, a mediana das estimativas dos analistas para o IPCA de 2016 subiu para 6,22% ante previsão de 5,58% das vésperas da ata do Copom anterior. No caso do Top 5, que reúne os economistas que mais acertam as previsões, a mediana das expectativas para a inflação do ano que vem está em 7,30%, portanto bem acima do teto da meta. Para 2017, os analistas consultados semanalmente pelo BC projetam IPCA de 5% e o grupo Top 5, de 5,80%.

A ata de hoje ressalta que o cenário de referência leva em conta manutenção da taxa de câmbio em R$ 3,85 e Selic em 14,25% ao ano "durante todo o horizonte relevante". No documento anterior, o BC trabalhava com a cotação do dólar em R$ 3,55. Já o cenário de mercado considera estimativas para câmbio e juros de analistas de mercado às vésperas do encontro da diretoria para definir o rumo da Selic. 

Ajustes. A ata também mudou o tom sobre o período de ajustes pelo qual passa a economia brasileira. De acordo com o BC, esse período, que é visto como necessário, "tem-se mostrado mais intenso e pode ser mais longo que o antecipado". Depois disso, no entanto, a perspectiva da diretoria é a de que o ritmo de atividade se intensifique conforme a confiança de firmas e famílias se fortaleça. 

Esse processo, segundo o BC, está sendo intensificado pelas incertezas provenientes do efeito de eventos não econômicos, que é como o BC menciona fatos políticos e casos de corrupção e investigação, como a Operação Lava Jato. "Em particular, o investimento tem-se retraído, influenciado, principalmente, pela ocorrência desses eventos, e o consumo privado também se contrai, em linha com os dados de crédito, emprego e renda."

O comitê destacou ainda que, no médio prazo, mudanças importantes devem ocorrer na composição da demanda e da oferta agregada. Para o colegiado, o consumo tende a crescer em ritmo moderado e os investimentos tendem a ganhar impulso. "Essas mudanças, somadas a outras ora em curso, antecipam uma composição do crescimento da demanda agregada no médio prazo mais favorável ao crescimento potencial", escreveram os diretores. 

(Com informações de Célia Froufe, Adriana Fernandes e Victor Martins, da Agência Estado)

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