André Dusek/Estadão
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BC vê mais inflação em 2016 e sinaliza que deve adiar corte nos juros

No primeiro Relatório Trimestral de Inflação sob o comando de Ilan Goldfajn, BC afirma que não há espaço para afrouxamento da política monetária

Célia Froufe, Adriana Fernandes e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2016 | 09h15

BRASÍLIA - O Relatório Trimestral de Inflação (RTI), divulgado nesta terça-feira, 28, pelo Banco Central, mudou a ênfase da diretoria colegiada da instituição ao falar da adoção de medidas necessárias para assegurar o cumprimento do regime de metas. Agora, essas ações não mais se dirigem aos preços em 2016, sendo apenas relacionadas à convergência da inflação para a meta de 4,5%, em 2017.

Para 2016, o BC passou a ver que a inflação subirá 6,9%, acima da projeção anterior de 6,6%. Para o fim de 2017, o relatório prevê uma inflação de 4,7% no cenário de referência. Por isso, o documento manteve a avaliação de que "o cenário central não permite trabalhar com a hipótese de flexibilização das condições monetárias". A estimativa de 4,7% para 2017 contradiz a ata do Copom publicada no último dia 16, que afirmava que a inflação ficaria em 4,5%. O BC considera que há avanços no combate à inflação, mas ressalta que a sua continuidade depende de ajustes - principalmente fiscais - na economia brasileira.

Por essas projeções, o BC não conseguirá levar a inflação para um patamar abaixo do teto de 6,50% estipulado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para o ano. No último Relatório de Mercado Focus, a mediana das previsões para o IPCA de 2016 subiu de 7,25% para 7,29%.

De acordo com o BC, a chance de estouro do teto da meta em 2016 subiu de 55% para 69%. Já no caso de 2017, passou de 22% para 18%. Estes cálculos foram feitos com base no cenário de referência. No cenário de mercado, a chance de estouro do teto da meta em 2016 aumentou de 65% para 72%, enquanto a de 2017 foi alterada de 33% para 35%.

Até o relatório de março, escrito ainda sob o comando de Alexandre Tombini, o BC dizia que adotaria as medidas necessárias também para circunscrever a inflação aos limites estabelecidos pelo CMN em 2016. Agora, o primeiro documento de Ilan Goldfajn deslocou a frase sobre a adoção de medidas, relacionando-as à promessa de entregar a inflação no centro da meta no próximo ano. 

A mudança decorre do prazo necessário para que as ações de política monetária tenham efeito na dinâmica de preços do País. De acordo com a literatura econômica, essa transmissão leva de seis a nove meses para acontecer. Portanto, qualquer medida adotada pelo Copom a partir de agora só deve impactar mesmo a inflação do próximo ano.

O economista-chefe da Infinity, Jason Vieira, afirmou em nota que o documento do BC sinaliza uma postura mais dura em relação ao combate à inflação. "Concluímos que os juros devem permanecer inalterados até a reunião de outubro, no mínimo", diz. Atualmente, a Selic está em 14,25% ao ano.

Crescimento. Com a melhora das expectativas para a economia depois do afastamento da posse do presidente exercício Michel Temer, o Banco Central revisou ligeiramente a previsão de queda da do Produto Interno Bruto (PIB) para 2016. No Relatório Trimestral de Inflação, a estimativa de recuou do PIB passou de 3,5% para 3,3%. É a primeira melhora depois de sucessivas revisões para baixo do atividade econômica no Brasil. 

O resultado previsto para 2016 pelo Banco Central sinaliza uma melhora do PIB em relação a 2015, quando o crescimento da economia caiu 3,8%. Esse melhora nas previsões foi influenciada, entre outros fatores, pela menor queda esperada para a indústria. O recuo projetado para o PIB da indústria é agora de 4,6%, ante um recuo de 5,8% estimado anteriormente.

"A melhora reflete o desempenho acima do esperado para o setor no primeiro trimestre", explica o relatório. O destaque negativo observado pelo BC é a piora das projeções para o PIB do setor agrícola. A estimativa passou de uma alta de 0,2% para um recuo de 1,1%. Essa reversão é decorrente de revisões para baixo nas projeções do IBGE para as safras de soja, cana-de-açúcar e milho.

O Banco Central também vê os primeiros sinais de reversão da deterioração das estimativas para os investimentos. A projeção da chamada Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) passou de um recuo de 13% para 11,6% em 2016. Essa terceira retração anual consecutiva, impactada pelos desempenhos negativos projetados para a construção civil. O consumo do governo deve recuar 0,8% em 2016, ante previsão anterior de queda de 0,7%. Já a estimativa de queda do consumo das famílias passou de 3,3% para 4%.

Câmbio. A diretoria do BC explicou que as estimativas apresentadas no RTI levaram em conta um câmbio de R$ 3,45 no cenário de referência. O documento teve como data de corte o dia 17 de junho deste ano. A cotação do câmbio é bem menor do que a de R$ 3,90 usada na edição anterior. Nesse dia de corte do RTI, o dólar encerrou os negócios a R$ 3,42. A conversão também é menor do que a que consta na ata do último Copom realizado em junho, de R$ 3,60. No Relatório de Mercado Focus de ontem, as projeções para o dólar ficaram em R$ 3,60 para 2016 e em R$ 3,80 para 2017.

O BC revisou no relatório as estimativas sobre as contas públicas, para além do já apresentado na última ata. A instituição passou a considerar um déficit primário de 2,60% do PIB para 2016, ante 2,80% da ata. Para 2017, o relatório repetiu a previsão de déficit de 0,90% do PIB.

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