André Dusek/Estadão
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BC vê melhora na economia, mas ainda não vê espaço para baixar juros

Na ata da primeira reunião do Copom sob o comando de Ilan Goldfajn, BC destacou o aumento recente dos preços dos alimentos e a necessidade de uma reforma fiscal

Célia Froufe, Adriana Fernandes e Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2016 | 09h26

BRASÍLIA - A ata do último encontro do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta terça-feira, 26, informa que todos os membros do colegiado "reconheceram progressos em relação às perspectivas de desinflação da economia brasileira". No entanto, eles "demonstraram preocupação com medidas de expectativas de inflação apuradas pela pesquisa Focus acima da meta para 2017". Essa é a primeira ata divulgada após um encontro do Copom sob a presidência de Ilan Goldfajn no Banco Central.

No documento, assim como constou no comunicado após a decisão do Copom na semana passada de manter a Selic em 14,25% ao ano, o BC deixa claro que ainda não há espaço para cortar a taxa básica de juros da economia. O colegiado conclui que, "tomados em conjunto, o cenário básico e o atual balanço de riscos indicam não haver espaço para flexibilização da política monetária".

Num alerta para o governo, o BC advertiu para o risco sobre a inflação de que haja a percepção de que os ajustes necessários na economia, entre eles o fiscal, foram abandonados ou postergados significativamente. O BC previu que, na hipótese desse cenário, o processo desinflacionário tenderia a ser mais lento, "aumentando os custos de levar a inflação para a meta".

"Por outro lado, os ajustes necessários na economia podem ser aprovados e implementados de forma mais célere, permitindo ganhos de confiança e queda das expectativas de inflação", destacou a ata. Nesse caso, a redução de incertezas potencializaria os efeitos do ajuste monetário em curso para o BC. 

O alerta do BC ocorre no momento em que cresce a desconfiança com o ajuste fiscal implementado pelo governo. Segundo a ata, todos os membros do Copom enfatizaram que a continuidade dos esforços para aprovação e implementação dos ajustes na economia, principalmente as reformas fiscais, é fundamental para facilitar e reduzir o custo do processo de desinflação. 

O BC, no entanto, está dividido em relação à evolução do ajuste. "Não houve consenso sobre a velocidade desses ajustes, o que sugere que constituem, ao mesmo tempo, um risco e uma oportunidade", diz o BC.

A autoridade monetária reconheceu que o ajuste das contas públicas pode envolver medidas com impactos diretos desfavoráveis sobre a inflação. "Esse é um risco a ser monitorado", alerta a ata. É a primeira vez que o BC alerta para os riscos de medidas que possam ser adotadas pelo Ministério da Fazenda terem impacto negativo na inflação. A ata, no entanto, não cita quais medidas seriam essas. O Broadcast, serviço de informações em tempo real do Grupo Estado, informou ontem que o BC está preocupado com o impacto de uma eventual elevação da Cide combustível na inflação. 

Projeções. A ata informou que a projeção de inflação da instituição para 2016 está em 6,75% tanto no cenário de referência quanto no de mercado. "O cenário básico do Comitê contempla desinflação na economia brasileira nos próximos anos", trouxe o documento. No Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de junho a previsão era de 6,9% no cenário de referência e de 7,0% no de mercado. No novo formato do comunicado do Copom, o colegiado deu detalhes sobre a taxa prevista para 2017, mas não havia mencionado a deste ano em nenhum momento. 

A meta é fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e está em 4,5% para 2016, 2017 e 2018. Em 2017, a margem de tolerância será reduzida dos atuais 2 pontos porcentuais (pp) para cima ou para baixo para 1,5 pp - intervalo que se manterá em 2018.

No Relatório de Mercado Focus da última segunda-feira, a mediana das estimativas dos analistas para o IPCA de 2016 estavam em 7,21%. O Copom reconheceu avanços no combate à inflação, mas destacou na ata que, mesmo com a melhor condução da política de juros, a inflação ainda deve oscilar em torno da meta. Por isso, argumentam os membros do Copom, o colegiado precisa procurar conduzir a política monetária de modo que suas projeções de inflação, inclusive no cenário de mercado, apontem inflação na meta nos horizontes relevantes.

A ata de hoje ressalta que o cenário de referência leva em conta uma taxa de câmbio de R$ 3,25 e Selic em 14,25% ao ano. No documento anterior, o BC trabalhava com a cotação do dólar em R$ 3,60. No RTI, estava em R$ 3,45. Já o cenário de mercado considera estimativas para câmbio e juros de analistas de mercado às vésperas do encontro da diretoria para definir o rumo da Selic.

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