BC vê risco de inflação e mantém taxa Selic

Decisão da diretoria do Banco Central foi mais uma vez unânime

Renée Pereira, Fabio Graner, Fernando Nakagawa e Nalu Fernandes, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2007 | 00h00

O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu ontem, por unanimidade, manter a taxa básica de juros em 11,25% ao ano, sem viés (tendência), pela segunda vez consecutiva. A novidade da reunião foi uma alteração no tradicional comunicado do Banco Central (BC), que retirou a frase "pausa no processo de flexibilização da política monetária" do texto. A mudança foi rapidamente interpretada pelos economistas como sinal de uma longa interrupção da queda da Selic.Na nota, os dirigentes do BC explicam que "avaliando a conjuntura macroeconômica e o cenário prospectivo para a inflação", o Copom decidiu manter a Selic no nível atual. A paralisação no processo de queda dos juros começou em outubro deste ano, após 18 quedas seguidas em um período de dois anos. Durante esse tempo, o Copom cortou a Selic em 8,5 pontos porcentuais e tirou o País da liderança dos maiores juros reais do mundo (ver quadro). Hoje o Brasil está em segundo lugar no ranking, com uma taxa de 7%, segundo cálculos da Consultoria UP Trend.Com exceção da mudança no texto, o resultado da última reunião do ano foi amplamente antecipado pelos analistas do mercado financeiro. "Mas a mudança no comunicado joga uma pá de cal na aposta de alguns analistas de que haveria um novo corte ainda no primeiro semestre de 2008. Quando o BC tira a palavra "pausa", ele sinaliza que é um viés de interrupção longa", afirma o economista do Santander, Maurílio Molan. Segundo ele, as condições terão de mudar sensivelmente para que o Copom retome o processo de redução dos juros. Na opinião dos economistas, apesar de os últimos índices de inflação terem vindo acima da expectativa, a principal preocupação dos dirigentes do BC, que ditou o resultado do Copom ontem, é com o nível de atividade econômica do País. Ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou um crescimento acumulado de 5,9% da produção industrial entre janeiro e outubro. Além disso, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a capacidade instalada do País atingiu 82,8%, o que representa um grande risco para a evolução dos índices de inflação, destaca o economista-chefe para América Latina do ABN Amro, Alexandre Schwartsman.Para ele, a paralisação no processo de flexibilização da política monetária do BC veio por tempo indefinido, inclusive sem cortes durante o ano de 2008. "Temos uma perspectiva de que a demanda doméstica continue se acelerando no ano que vem. A queda promovida nos dois últimos anos ainda não apareceu totalmente na economia."O diretor de pesquisa do Goldman Sachs para mercados emergentes, Paulo Leme, aprovou a decisão do Copom ontem. Na opinião dele, há riscos de o BC ter de elevar a Selic no ano que vem para conter a evolução da inflação. Os bancos centrais dos países dos mercados emergentes não devem ser capazes de seguir a política contracíclica do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), avaliou ele. O executivo vê o Fed cortando o juro em direção a 3% em 2008. "O Brasil não será capaz de surfar a onda do Fed." Em 2008, avaliou o executivo, inflação e forte demanda doméstica deverão continuar no radar da política monetária brasileira. Leme pondera que o cenário para o próximo ano, no geral, está sendo um dos mais difíceis de projetar nos últimos 11 anos. O analista enxerga probabilidade, entre 40% e 45%, de recessão dos EUA em 2008. Além da persistente volatilidade do ambiente internacional - sobretudo decorrente da incerteza quanto à extensão dos estragos da crise imobiliária americana -, os economistas da consultoria LCA acrescentam ao cenário de manutenção dos juros os aumentos nos preços mundiais de petróleo e alimentos. Para os economistas, as apostas para as próximas reuniões do Copom ficarão mais fáceis com a ata do encontro de ontem, que será divulgada na quinta-feira que vem. A próxima reunião do Copom será nos dias 22 e 23 de janeiro.

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