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BC vende US$ 28 bi em reservas, que caem para patamar de maio de 2016

Autoridade monetária, porém, considera que o volume de operações não reduziu a segurança do Brasil em relação a choques na economia global

Eduardo Rodrigues e Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2019 | 07h58

BRASÍLIA - Para conter a alta do dólar, o Banco Central já vendeu cerca de US$ 28 bilhões em reservas internacionais desde a metade do ano. Com isso, o nível do colchão usado para fazer frente ao risco de crises internacionais caiu para um volume semelhante ao do começo de maio de 2016. 

No fim de junho deste ano, as reservas internacionais estavam no maior patamar da história, superando os US$ 390,5 bilhões. Na semana passada, porém, o montante estava em US$ 362,5 bilhões. Essa diferença de US$ 28 bilhões é resultado das vendas de dólares ocorridas no período e da própria variação dos valores dos ativos que compõem as reservas - a maior parte em títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

O BC avalia, no entanto, que o volume de operações não reduziu a segurança do Brasil em relação a eventuais choques na economia global. Ainda que as reservas internacionais brasileiras tenham sido consumidas nos leilões à vista de dólares realizados pelo BC desde agosto, a autoridade monetária também vendeu contratos futuros de compra da moeda americana no mesmo montante - os chamados swaps cambiais.

Enquanto as reservas caíram US$ 28 bilhões, a posição cambial líquida - que também leva em conta os swaps - passou de US$ 326,0 bilhões para US$ 327,3 bilhões. Por isso, o BC defende que esse indicador representa o verdadeiro "seguro" do Brasil contra eventuais crises.

"Existe uma interpretação equivocada de que o Brasil vendeu US$ 23 bilhões em reservas", comentou em 20 de novembro o presidente do BC, Roberto Campos Neto, durante audiência pública na Câmara dos Deputados. Na ocasião, ele voltou a colocar o conceito de posição cambial líquida como o mais importante para avaliar o tamanho do seguro.

Alguns economistas e profissionais do mercado de câmbio ouvidos pelo Estadão/Broadcast, no entanto, fazem avaliações diferentes. O economista Sidney Nehme, sócio-diretor da corretora NGO, avalia que o BC defende o conceito de posição líquida para evitar eventuais críticas contra a venda de reservas internacionais.

"Parece que existe certo constrangimento por parte do BC de assumir que está vendendo reservas, o que seria uma atitude natural em um momento em que você tem uma carência de moeda", comentou Nehme.

O economista Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria Integrada, afirma que, ao se analisar o nível do "seguro" de um país, o mais correto é observar as reservas internacionais. "Os swaps realmente entram neste conceito da posição líquida, mas eles em algum momento serão liquidados - e serão liquidados em reais, inclusive", afirma o economista. "Não creio que o swap efetivamente substitua de forma precisa o papel que os dólares das reservas preenchem."

Silvio Campos Neto lembra ainda que existe um debate, no Brasil, sobre a necessidade de se manter reservas internacionais em níveis tão elevados, hoje acima dos US$ 360 bilhões. "Muitas análises e comparações convergem para a leitura de que o Brasil tinha uma posição realmente excessiva em reservas internacionais."

"Nesse contexto, o BC aproveitar o momento em que o dólar está muito volátil para reduzir as reservas me parece bastante razoável", afirmou. "Não vejo problema nessa redução de reservas, até porque o nível é bastante confortável. Mas colocar os swaps como um substituto perfeito das reservas me parece algo questionável."

Qual o nível ideal? 

Citando a metodologia do Fundo Monetário Internacional (FMI), a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado realizou um estudo mostrando que as reservas poderiam estar em patamares ainda menores sem comprometer a solidez do Brasil frente a crises externas. Pelo estudo, as reservas brasileiras poderiam ser reduzidas para US$ 220 bilhões sem risco ao País.

Para o diretor da IFI, Josué Alfredo Pellegrini, o BC tem conseguido usar essa "gordura" no nível de reservas para fazer intervenções pontuais no mercado de câmbio sem comprometer a margem de segurança para atuar em caso de crises externas.

"O BC tem agido em função das pressões específicas do mercado de câmbio. O ocorre um efeito colateral benéfico do lado do endividamento, mas o BC não está preocupado com o efeito fiscal dessa equação", acrescenta Pellegrini.

Volume menor não aumenta riscos, diz BC

Em posicionamento oficial, o BC lembra que o mercado cambial brasileiro passou a demandar mais contratos futuros da moeda americana do que dinheiro imediato ao longo da última década. Com isso, a autoridade monetária aumentou a atuação por meio dos contratos futuros de compra e venda de dólares - os chamados swaps cambiais -, algo que não costuma ocorrer em outras economias, nas quais o mercado de câmbio se movimenta nos negócios à vista.

"Não são muitos os Bancos Centrais que utilizam instrumentos derivativos para atuação no mercado de câmbio, e mesmo aqueles que o fazem, a escala é muito distinta do que ocorre no Brasil. Em função dessa estrutura do mercado, e da escala de utilização de outros instrumentos que não dólar à vista, o BC entende que a posição cambial líquida é uma medida mais adequada para avaliar esse 'seguro' contra choques externos do que o volume bruto das reservas internacionais", argumentou o BC.

A autoridade monetária lembrou ainda que organismos internacionais e agências de classificação de risco utilizam em suas publicações apenas o conceito de reservas internacionais para uniformizar as métricas e possibilitar a comparação entre os diferentes países, independentemente das especificidades de cada mercado.

"De qualquer forma, as demais exposições a instrumentos cambiais, que não as advindas das reservas internacionais, são consideradas por estes organismos e por agências de rating quando avaliam a capacidade de solvência e o grau de segurança das economias avaliadas", completou o BC.

Questionado pela reportagem, o BC ainda enfatizou que não tem o objetivo de buscar um patamar "adequado" de reservas internacionais, seja maior ou menor que o nível atual.

"O único mandato do Banco Central em relação ao mercado de câmbio é prezar pelo seu adequado funcionamento, sem perseguir quaisquer níveis ou adotar a preferência por um ou outro instrumento. Ao BC cabe atuar no instrumento mais eficiente a cada momento, o que, em geral, será aquele que vai ao encontro da demanda dos participantes de mercado. Não há mandato para o BC buscar quaisquer níveis de reservas internacionais, swaps cambiais ou posição cambial líquida, que são consequências, e não objetivos, de sua atuação no mercado de câmbio", concluiu a instituição. 

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