BCE alerta para risco de crise bancária

Para autoridade monetária da zona do euro, aumento do volume de empréstimos problemáticos sobrecarrega instituições bancárias

JACK EWING , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2013 | 02h05

O Banco Central Europeu (BCE) informou que a crise econômica e o aumento no volume de empréstimos problemáticos estão ampliando os riscos de nova crise bancária na Europa, ainda que a pressão sobre os mercados financeiros da região tenha diminuído.

Numa avaliação sóbria do sistema financeiro do bloco do euro, o BCE diz que a recessão prolongada afetou negativamente a capacidade de pagamento dos tomadores de empréstimos, sobrecarregando as instituições bancárias que ainda não se recuperaram por completo dos problemas causados pela crise financeira de 2008.

O ano passado "não foi nada bom para os bancos", diz Vítor Constâncio, vice-presidente do BCE. Embora não tenha, como de costume, mencionado bancos específicos, o BCE informa que as instituições mais vulneráveis são de países que enfrentam altas taxas de desemprego e queda nos preços dos imóveis. Nessa lista devem estar Itália, Espanha, Grécia e Portugal. Mas também há bancos debilitados em economias mais sólidas, como a Alemanha, onde o Commerzbank e alguns bancos estatais enfrentam problemas com empréstimos à indústria naval.

A Alemanha tem sido criticada por querer doutrinar outros países quanto à importância da responsabilidade fiscal, ao mesmo tempo em que tenta impedir um exame mais aprofundado da situação de seus bancos. "Os alemães são um exemplo de austeridade quando tratam das contas públicas de outros países, mas não são tão austeros assim na hora de examinar seus bancos", diz Stefano Micossi, diretor-geral do grupo italiano Assonime.

O BCE avalia a saúde do sistema financeiro europeu de seis em seis meses, mas o relatório de quarta-feira tem importância especial, pois o banco se prepara para assumir a condição de autoridade máxima do mercado de crédito na zona do euro. O documento também questiona se os bancos não estariam subestimando seus riscos de maneira sistemática, e chama a atenção para a tarefa monumental da instituição no ano que vem, quando estiver investida de seus novos poderes.

OCDE. Um retrato igualmente pessimista sobre a situação econômica da região foi divulgado na quarta-feira pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). O relatório adverte para os perigos associados à presença de bancos precariamente capitalizados, um problema que, segundo a OCDE, reforça a importância de que as lideranças europeias levem adiante o projeto de unificação bancária da zona do euro, em que está incluída uma supervisão centralizada do mercado de crédito.

A reduzida capacidade dos bancos europeus para absorver perdas e a falta de uma efetiva unificação bancária são ameaças em potencial a uma estabilidade duradoura, diz a OCDE. A diminuição da pressão sobre os mercados financeiros parece ter amainado o desejo de avançar na criação de mecanismos bancários unificados, acrescenta o relatório da organização.

A OCDE, cuja sede fica em Paris, prevê que o PIB de seus 34 países-membros, entre os quais só há economias desenvolvidas, crescerá 1,2% este ano, um número ligeiramente inferior ao 1,4% previsto há seis meses.

O desemprego, sobretudo na Europa, continua a ser um problema que contribui para o ritmo desigual de crescimento da economia global, diz a OCDE. A organização adverte que a não resolução dessa questão pode prejudicar os progressos alcançados com os ajustes fiscais e estruturais por muitos países europeus nos últimos anos.

Ao mesmo tempo, o braço executivo da União Europeia informou na quarta-feira que concederia mais tempo para que França, Espanha e outros cinco países cumpram suas metas compulsórias de déficit fiscal.

Mas a Comissão Europeia, com sede em Bruxelas, também adverte contra a tentação representada pela adoção de medidas de estímulo à economia baseadas em relaxamento fiscal, enfatizando, em seu documento anual de recomendações de política econômica, que o importante para a Europa agora é desmontar as rígidas legislações trabalhistas e remover outros obstáculos "estruturais".

O presidente da Comissão, José Manuel Barroso, diz que em alguns países a situação é de "emergência social". "Não há margem para atitudes complacentes." Quanto à preocupação de que a Europa tenha exagerado nos cortes, Barroso diz que "agora temos espaço para diminuir o ritmo de consolidação fiscal". Mas ele também observa que "crescimento alimentado por endividamento público e privado não é sustentável". Isso é "artificial", acrescenta,.

No documento divulgado na quarta-feira, o BCE se mostra ligeiramente mais otimista em relação ao sistema financeiro da zona do euro do que em seu relatório de dezembro. Diminuiu o receio de que governos da região entrem em moratória, e os bancos de países como Espanha e Grécia enfrentam menos dificuldades para atrair depósitos e captar recursos. "O estresse sistêmico da zona do euro encontra-se no nível mais baixo dos últimos dois anos", afirma a instituição. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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