EFE/ARNE DEDERT
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BCE anuncia a injeção de € 1,1 trilhão na economia até 2016

Serão usados € 60 bilhões por mês, a partir de março, na compra de papéis do tesouro dos governos europeus por ao menos um ano

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo - atualizado às 14h15

22 de janeiro de 2015 | 11h39


GENEBRA - Num esforço para acabar com uma crise que já dura oito anos, a Europa vai injetar trilhões de euros em sua economia. Nesta quinta-feira, 22, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou que vai colocar até o ano que vem  € 1,1 trilhão para tentar tirar de forma definitiva a zona do euro da estagnação e evitar uma deflação. Com o anúncio, as bolsas europeias subiram e o euro atingiu seu menor valor diante do dólar em onze anos.

Serão € 60 bilhões por mês usados pela instituição para comprar papéis do tesouro dos governos europeus até setembro de 2016, acima do que se especulava na imprensa europeia. Mas o BCE alerta: vai agir até que a inflação volte a uma taxa "adequada". Ou seja, de cerca de 2%. "Estamos longe dessa meta", admitiu Mario Draghi, presidente do BCE. Segundo ele, a expectativa do mercado é de que a inflação anual em dez anos será em média de 0,9%. "Precisamos agir", disse.

O bloco deve crescer apenas 1,2% em 2015, flerta com a deflação e que não consegue conter o desemprego. Em dezembro, os preços foram afetados negativamente, com uma deflação de 0,2%.

Agora, a medida - conhecida como quantitative easing (QE) - em português, afrouxamento quantitativo ou monetário - promete ter um impacto não apenas na inflação, mas também nos mercados de câmbio, no fluxo de dinheiro e no setor financeiro. 

A política adotada pelo BCE é semelhante à encerrada recentemente pelo Federal Reserve (FED, o banco central dos Estados Unidos. Consiste, basicamente, em aumentar a liquidez na economia. A autoridade monetária toma para si ativos de bancos e entrega dinheiro em troca, aumentando a base monetária, ou seja, a quantidade de dinheiro corrente. Essa injeção de mais dinheiro no mercado permite às instituições financeiras ter mais condições de fazer empréstimos e financiamentos e, consequentemente, estimula o mercado produtor e de consumo.

O anúncio foi feito pelo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi. A declaração começou com alguns minutos de atraso. Mas Draghi foi taxativo: "Não tirem conclusões disso. Eram os elevadores que não estavam funcionando".

Para Draghi, a esperança é de que a medida tenha um impacto nos salários que, sem um suporte, poderiam começar a cair. Ele também espera que empresas voltem a investir e que créditos sejam facilitados para famílias.

Mas ele também mandou seu recado aos governos. "Podemos dar apoio. Mas agora cabe aos governos fazerem suas reformas", alertou. "Quanto mais eles fizerem ajustes, mais eficientes serão nossas medidas", declarou. Ele também pediu que a Comissão Europeia acelere a implementação de planos de investimentos.

A chanceler alemã Angela Merkel também reforçou seu alerta e indicou que a ação do BCE "não deve fazer governos desviarem do caminho das reformas". Mas nem todos na Europa concordaram com a medida. Draghi afirmou que uma "grande maioria" dos bancos centrais europeus apoiou a iniciativa de agir imediatamente. Mas admitiu que nem todos queriam começar o projeto no curto prazo. "Houve uma boa discussão", reconheceu.

Em medidas similares adotadas pelos EUA em 2012, o impacto foi global. Críticos alertaram que o dinheiro jamais conseguiu resgatar a economia local e a liquidez, na prática, inundou mercados emergentes com fundos especulativos. O resultado foi uma desestabilização e a valorização das moedas.

O governo brasileiro chegou a acusar americanos e europeus de promover uma "guerra cambial" e pediu no G-20 que medidas similares passassem a ser coordenadas. Mas europeus e americanos alertaram que jamais pensaram em afetar os emergentes e apenas estavam defendendo suas economias.

Mesmo antes do anúncio, o volume de dinheiro que inundou outros mercados forçou o BC suíço a abandonar o controle de sua moeda, enquanto a Dinamarca foi obrigada a cortar taxas de juros para evitar a enxurrada de dinheiro.

Dentro da Europa, a medida foi precedida de muitas tensão. A Alemanha queria garantias de que, em casos de perdas, o BC europeu compartilharia a conta com todos os 19 BCs da zona do euro. Na prática, o que Berlim não quer é assumir sozinha a conta de uma eventual fiasco e alertou que a queda do preço do petróleo será suficiente para dar um impulso à economia europeia. O governo francês, às vésperas do encontro, criticou a posição da Alemanha.

O BCE também manteve inalterada sua taxa de juros, nos níveis mais baixos jamais registrados, 0,05%.

A medida não foi tomada de forma inesperada. O BCE já vinha se preparando para isso desde 2010, quando comprou títulos da dívida da Grécia. Naquele momento, Berlim atacou a decisão, alertando que daria a sensação aos gregos de que seriam socorridos sem qualquer exigências de reformas. Os alemães também temiam a volta da inflação. Hoje, nenhum desses argumentos funcionou.

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