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BCE decide hoje se injeta euros na economia

Medida é aguardada pelos mercados globais, pode durar 2 anos e chegar a mais de 1 trilhão de euros

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE na Suíça, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2015 | 03h16

GENEBRA - Entrando no oitavo ano de crise, a Europa pode injetar mais de 1 trilhão na economia do bloco para tentar tirar de forma definitiva a zona do euro da estagnação e evitar uma deflação. Nesta quinta-feira, 22, o Banco Central Europeu (BCE)se reúne para tomar uma decisão sobre a proposta de usar cerca de 50 bilhões por mês para comprar papéis do Tesouro dos governos europeus por pelo menos um ano e numa iniciativa que poderia durar até 24 meses.

A medida - conhecida como quantitative easing (QE) - está sendo aguardada por líderes de todo o mundo diante do impacto que promete ter nos mercados de câmbio, no fluxo de dinheiro e no setor financeiro. Sobre a mesa dos xerifes das finanças europeias hoje estará um pacote que prevê a injeção de pelo menos 600 bilhões em um ano. Se a crise continuar, outro tanto seria usado em 2016, segundo jornais como o Financial Times, Wall Street Journal e a agência Bloomberg.

Em medidas similares adotadas pelos Estados Unidos em 2012, o impacto foi global. Críticos alertaram que o dinheiro jamais conseguiu resgatar a economia local e a liquidez, na prática, inundou mercados emergentes com fundos especulativos. O resultado foi desestabilização e valorização das moedas.

O governo brasileiro chegou a acusar americanos e europeus de promoverem uma "guerra cambial" e pediu no G-20 que medidas similares passassem a ser coordenadas.

Medida paliativa. Se entre os emergentes a medida é vista com temor, já que poderia representar uma pressão sobre suas moedas, na Europa, a iniciativa também ainda não é alvo de unanimidade e muitos alertam que a injeção não passa de uma iniciativa para "ganhar tempo" enquanto os governos não conseguem fazer suas reformas e reduzir suas dívidas.

De acordo com a proposta, o BCE sugere compartilhar com os bancos centrais da zona do euro os riscos da compra dos papéis dos Estados. Uma coletiva do presidente do BCE, Mario Draghi, está marcada para hoje no início da tarde. O italiano já alertou que fará "tudo que estiver em seu alcance" para levantar a Europa, bloco que deve crescer 1,2% em 2015, flerta com a deflação e que não consegue conter o desemprego.

Dezenas de vozes pela Europa emitiram ontem comentários sobre a proposta. Na Irlanda, o ministro das Finanças, Michael Noonan, rejeitou a ideia, enquanto na Itália a proposta de compartilhar responsabilidade é vista como um enfraquecimento das medidas.

Uma das chaves para a decisão de hoje é da Alemanha, maior contribuinte para o BCE. Berlim quer pôr limites para o compartilhamento de perdas que o programa possa ter.

A Alemanha foi inicialmente contra a ação do BCE, alertando que o socorro poderia dar a impressão a governos, como o da Grécia, de que todos os pecados seriam perdoados. A chanceler Angela Merkel alertou que uma iniciativa do BCE não poderia significar o abandono das reformas pelos governos.

Para o ex-presidente do BC alemão, Axel Weber, a iniciativa do BCE seria apenas "parte da solução". Para ele, Draghi está "ganhando tempo" para permitir que políticos em diferentes países deem uma solução a suas respectivas crises. Para Weber, hoje presidente do banco UBS, existem "questões legítimas" sobre a viabilidade do projeto de moeda única.

William White, o ex-economista do Banco de Compensações Internacionais que em 2007 alertou em vão que uma crise estava se aproximando, também atacou a iniciativa do BCE. "O mundo está perigosamente ancorado. Guerras cambiais estão sendo vistas e não sei onde isso vai parar", declarou White, que hoje é assessor de Merkel. Para ele, o mundo está mais alavancado que em 2008. "Hoje, a dívida pública e privada está 20% superior ao que era antes da crise. Estamos segurando um tigre pelo rabo."

Mercado. A expectativa de que o Banco Central Europeu (BCE) anuncie nesta quinta-feira, 22, um programa de compra mensal de ativos fez com que o dólar recuasse ontem ante o real. Além disso, garantiu a alta da Bovespa e algum viés de baixa às taxas dos contratos futuros de juros no Brasil. A moeda dos EUA negociada no mercado à vista de balcão caiu 0,38%, aos R$ 2,6060. O movimento ocorreu em virtude da perspectiva de que o aumento da liquidez global, em um cenário de juros altos no Brasil, acabará atraindo mais capital ao País, para a renda fixa e a Bolsa. Fontes disseram que uma proposta do conselho executivo do BCE prevê que a instituição compre cerca de 50 bilhões de euros em bônus soberanos por mês, ao longo de um período mínimo de um ano, o que totalizaria 600 bilhões de euros. No meio do dia, o fluxo cambial divulgado pelo Banco Central confirmou a percepção de entrada de recursos no Brasil em sessões mais recentes, em função do diferencial de juros, e a moeda dos EUA renovou mínimas. Depois, porém, o Banco do Canadá surpreendeu ao cortar a taxa de juros em 0,25 ponto, para 0,75% ao ano. Isso fez o dólar americano subir ante o canadense e também reduziu o movimento de queda da moeda ante o real.

Enquanto isso, a Bovespa experimentou um dia de forte ganhos, puxados principalmente pelos papéis da Petrobrás e com apenas cinco ações em queda. Além da alta do petróleo, a estatal foi beneficiada pela leitura de que terá mais autonomia para conduzir sua política de preços. Já o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, afirmou que a petroleira só terá prejuízo se o barril da commodity ficar entre US$ 20 e US$ 30. Neste ambiente, o Ibovespa - índice de referência da Bolsa brasileira - teve alta de 2,81%, aos 49.224,08 pontos. 

Na renda fixa, as taxas dos contratos futuros de juros com prazos curtos e intermediários oscilaram ao redor dos patamares de terça-feira durante boa parte do dia, até terminarem com leve recuo, alinhadas ao dólar e com os investidores à espera da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, na noite de ontem. As taxas futuras de longo prazo, por sua vez, recuaram de maneira mais intensa, diante da percepção de que o quadro de juros no mundo, reforçado pela decisão canadense, é baixista. Com os sinais positivos da política fiscal brasileira, abriu-se espaço para esse movimento das taxas com vencimento mais distante. O contrato para janeiro de 2021 marcou 11,68%, ante os 11,79% vistos na terça-feira. 

No exterior, as bolsas de Nova York fecharam levemente em alta, em meio à expectativa com o BCE. O índice Dow Jones subiu 0,22%, o S&P 500 avançou 0,47% e o Nasdaq ganhou 0,27%. 

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