BCE vai comprar ? 60 bi em bônus

Após críticas de chanceler alemã, banco reafirma independência

Leandro Modé, FRANKFURT, O Estadao de S.Paulo

05 de junho de 2009 | 00h00

Depois de ser duramente criticado na terça-feira pela chanceler alemã, Angela Merkel, o Banco Central Europeu (BCE) detalhou ontem o programa de compra de bônus para estimular a atividade econômica da região, mergulhada em profunda recessão. A instituição vai comprar o equivalente a ? 60 bilhões nos mercados primário e secundário (novas emissões e papéis já existentes). Com isso, o BCE segue uma política chamada de "quantitative easing" (afrouxamento dos agregados monetários, em português) já adotada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Banco da Inglaterra (BOE) e Banco do Japão. Seu uso é indicado em casos extremos, quando instrumentos tradicionais de política monetária (principalmente taxa de juros) já chegaram ao limite. No caso do BCE, o juro foi mantido ontem em 1% ao ano, nível mais baixo da história do euro. O BOE também manteve a taxa inalterada em 0,5%. Na prática, os bancos centrais têm de "imprimir" dinheiro novo para trocar por esses bônus. Com isso, injetam liquidez no mercado, o que, em tese, contribui para o crescimento da economia. Mas a adoção da política está longe do consenso. Irlanda, Espanha e Itália são favoráveis. A Alemanha, porém, teme que a medida provoque inflação. O medo foi expresso por Merkel na terça-feira. Em uma atitude sem precedentes, a chanceler alemã criticou fortemente o BCE, dizendo que a ação poderia ser a semente da próxima crise. Alguns críticos afirmam que Merkel foi dura por causa do ambiente político interno, já que a Alemanha terá eleições em setembro. O assunto dominou a entrevista que o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, concedeu após a reunião de política monetária do banco. "Conversei ontem (quarta-feira) com a chanceler e ela reiterou o respeito pela independência do BCE", afirmou. Sobre o programa de compra de bônus, Trichet negou que se trate da política de "quantative easing". "Trata-se de aumentar o apoio ao crédito." Ele explicou que o programa vai começar a funcionar em julho e permanecerá aberto ao menos até o fim de junho do ano que vem. Os papéis que poderão ser comprados pelo BCE terão de fazer parte de emissões de, no mínimo, ? 100 milhões e precisarão de uma nota mínima de BBB concedida pelas principais agências de risco (Fitch, Standard & Poor''s ou Moody''s). Os bônus terão de ser necessariamente garantidos (covered bonds, em inglês), categoria na qual nunca existiu um calote. O jornalista viajou a convite do Centro Europeu de Jornalismo (EJC)

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