BCs admitem que mundo fracassou ao lidar com a crise

BIS alerta que o mundo precisará de 20 anos para voltar a ter taxas de dívida que registrava antes de setembro de 2008

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / BASILEIA , O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2012 | 03h04

O Banco de Compensações Internacionais, BIS na sigla em inglês (Bank for International Settlements), alerta para a desaceleração da economia mundial e denuncia o fracasso coletivo de governos em darem uma resposta à crise que já atravessa seu quinto ano.

Sem uma mudança radical na estratégia, a entidade alerta que o mundo precisará de 20 anos para voltar a ter a mesma taxa de dívida que registrava antes da quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. Para a entidade, a ação tomada por americanos e europeus em injetar trilhões de dólares nas economias são apenas "medidas paliativas". Já a crise europeia está ainda distante de ver uma solução.

A avaliação é um atestado da incapacidade de BCs, governos e bancos em superar a crise que já entra em seu quinto ano. Hoje, o mundo afunda em dívidas, bancos vivem uma crise das mesmas proporções de 2008 e a economia está em recessão. "A confiança na recuperação econômica sofreu uma erosão", alertou anteontem Jaime Caruana, diretor-gerente do BIS. "A economia mundial vive um momento de fragilidade. Os problemas têm raízes profundas e exigem soluções fundamentais", disse.

Cinco anos depois da eclosão da crise financeira internacional, o cenário não mudou: os desequilíbrios continuam profundos, bancos estão alavancados de forma ameaçadora, a dívida pública explodiu e BCs estão sobrecarregados. Esse círculo vicioso afeta a todos e nenhuma das reformas prometidas pelo G-20 jamais entraram em vigor plenamente.

No passado, esse mesmo relatório do Banco de Compensações Internacionais já alertava que uma crise de grandes proporções estava por eclodir. Mas, num momento de pujança global, autoridades optaram por ignorar os sinais de alerta.

Legado. Agora, a avaliação tida como referência é clara: o legado da crise de 2008 ainda não foi superado e não existe, por enquanto, uma perspectiva de um crescimento sustentável.

"As metas de um crescimento equilibrado, políticas econômicas equilibradas e um sistema financeiro seguro nos eludem", diz o informe. O presidente do BC francês, Christian Noyer, confirmou o tom pessimista: "ainda não conseguimos criar um entorno financeiro estável".

Não por acaso, as previsões de recuperação deram lugar à constatação de que a crise não acabou. 2012 começou com alguma esperança. Mas a atividade econômica caiu no segundo trimestre, com uma recessão na Europa, problemas nos Estados Unidos e uma marcada desaceleração na China, Índia e Brasil.

Para superar a crise, o BIS faz três recomendações: os bancos precisam reconhecer suas perdas e recapitalizar, os governos precisam lidar com suas dívidas, assim como os setores privados.

Para o BIS, os BCs agiram de forma decisiva para evitar o que seria uma Grande Depressão. Mas alerta que aqueles que esperavam por soluções fáceis continuarão decepcionados, pois elas não existem.

Segundo ele, os BCs não podem dar uma solução a dívidas e não mede críticas à injeção de trilhões de dólares nos bancos, como forma de garantir liquidez, alertando que a medida apenas perpetua os problemas dos bancos. "Isso só faz ganhar tempo", disse Caruana.

Reformas. Mas governos terão de dar uma solução e a injeção seria a prova da incapacidade de governos em agir. Para Caruana, a falta de crescimento não é resultado de falta de estímulos. Mas sim falta de reformas. "Governos estão arrastando seus pés e ajustes estão sendo adiados", alertou.

Os BCs, segundo a entidade, não resolverá nada e toda essa injeção trilionária é apenas um "paliativo". A liquidez só voltará quando bancos forem saneados e isso só ocorrerá quando houver um novo modelo financeiro que limite o risco.

O único feito que os BCs conseguiram até agora foi incrementar o risco de uma nova crise. A ação os deixou vulneráveis, distorceu os mercados e afetou os emergentes. Pior, afetou sua credibilidade.

Retomada. Para voltar a crescer, a economia mundial ainda precisa dar uma solução ao desequilíbrio que apenas se aprofunda, com emergentes e Ásia acumulando reservas recordes.

Os governos asiáticos tem hoje US$ 5 trilhões em reservas, a metade do volume mundial. US$ 3 trilhões estão na China. Já o Brasil tem hoje reservas acima da própria Europa, com mais de US$ 360 bilhões. Na avaliação do BIS, só quando esta situação estiver resolvida é que outras economia voltarão a crescer.

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