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BCs, bolhas e o pecado da omissão

O estouro de mais uma bolha, desta vez no setor imobiliário, motivou mais uma onda de críticas aos bancos centrais (BCs), mas seus detratores mais comuns, os defensores das políticas frouxas, não ganharam nenhum ponto com isso. A espinafração ao Federal Reserve (Fed, o banco central americano), na recente reunião de economistas e banqueiros em Jackson Hole, nos Estados Unidos, teve o sentido exatamente oposto. A autoridade monetária foi crucificada publicamente não por haver sacrificado o crescimento econômico, mas por haver assistido com olhar complacente à farra dos empréstimos com baixa garantia. Como isso foi possível? Para boa parte dos políticos isso não tem segredo. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, andou esbravejando contra os especuladores e reclamando maior controle dos mercados financeiros. Condenar a especulação é um dos exercícios políticos mais fáceis, mais populares e também mais improdutivos. Mas o caso de Sarkozy é exemplar também noutro sentido. Enquanto a bolha crescia, ele pressionava o Banco Central Europeu (BCE) para baixar os juros. Uma pessoa coerente poderia ter feito uma coisa ou outra, mas não as duas. O economista Stephen Roach, hoje presidente do Morgan Stanley para as operações na Ásia, apresentou na semana passada um diagnóstico interessante: os bancos centrais, segundo ele, ficaram parados enquanto o mundo mudava. Continuaram formulando políticas com a atenção concentrada nos índices de preços ao consumidor, sem dar importância, na prática, aos preços dos ativos. ''''Quando eu estava no Fed'''', disse Roach, lembrando seu período como economista no BC americano (1972-79), ''''não se toleravam bolhas.'''' Bolhas, todo mundo sabe, surgem quando sobra dinheiro, os banqueiros ficam bonzinhos e o crédito rola fácil. Tudo isso ocorreu nos últimos anos. A expansão do crédito para as economias em desenvolvimento foi, em parte, conseqüência do excesso de recursos no mercado. O endividamento dos tomadores ''''subprime'''', um eufemismo para designar os clientes de cadastro ruim ou duvidoso, teria sido muito menos provável noutra circunstância. O abandono dos padrões de segurança foi ostensivo e há dois anos William Rhodes, presidente do Citigroup, já advertia publicamente para o risco de problemas graves. Pelo menos dois fatores facilitaram o crescimento da bolha. A supervisão oficial cobre apenas uma parte do mercado financeiro. Há regras para os bancos, definidas internacionalmente, mas outras instituições funcionam com grande liberdade. Puderam entregar-se à farra sem restrição, criando uma espécie de corrente da felicidade com a emissão sucessiva de títulos. De algum modo os bancos acabaram entrando no jogo e contribuindo para a multiplicação das operações. O segundo fator foi a omissão dos bancos centrais, apontada por Stephen Roach e por outros economistas não tão renomados. Consumado o desastre, não há escolha. Os BCs tiveram de intervir para socorrer instituições e evitar uma quebradeira no mercado. Nessa altura, não tem muito sentido condenar a ajuda aos especuladores e fazer discursos contra o ''''risco moral'''' (moral hazard), inevitável quando os aventureiros e imprudentes podem contar com a ajuda na hora do perigo. No Juízo Final os inocentes irão para um lado e os pecadores para outro, mas numa crise financeira não há como fazer a separação. A redução dos juros básicos deve ser o segundo passo. O Fed não tem alternativa, agora, segundo o consenso dos analistas. Por não ter apertado o crédito na hora certa, quando ficou claro o perigo da bolha, o BC americano terá de fazer o contrário, cortando os juros para evitar um desastre maior. O presidente do Banco da França, Christian Noyer, resumiu a história numa entrevista ao jornal Le Monde: ''''A crise demonstra, em todo caso, ser falsa a idéia, veiculada por alguns, de que a economia vai tanto melhor quanto mais baixos os juros. É preciso ter sempre uma política monetária ajustada, que permita um bom crescimento econômico sem risco de inflação e limitando os riscos de bolha especulativa.'''' A crise também reforça as propostas de melhor regulação do sistema bancário internacional. As normas conhecidas como Basiléia 2 serão um passo para isso, mas também é preciso, como lembrou Noyer, impor alguma disciplina às entidades atualmente não reguladas. Tudo isso compõe uma pauta excelente para a reunião do Fundo Monetário Internacional, em outubro. *Rolf Kuntz é jornalista

Rolf Kuntz*, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2013 | 00h00

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