BCs da AL descartam ação conjunta e se dizem confiantes

Henrique Meirelles afirma que, considerando características da região, abordagem atual é a mais eficaz

Marina Guimarães, da Agência Estado,

19 de outubro de 2008 | 17h57

Os presidentes dos bancos centrais dos principais países da América Latina descartaram a adoção de medidas conjuntas para enfrentar a crise financeira internacional, a exemplo do que ocorreu na Europa. "Nossa conclusão é que na região, pelas características próprias do funcionamento do sistema financeiro e do grau de interação que temos com as economias maiores, o atual tipo de abordagem é o mais eficaz e o mais eficiente para a região", defendeu o presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles. Além de Meirelles, participaram do encontro os presidentes dos bancos centrais da Argentina, do Chile, do México, da Colômbia e do Peru. O encontro ocorreu em Santiago de Chile.   Veja também: Consultor responde a dúvidas sobre crise   Como o mundo reage à crise  Entenda a disparada do dólar e seus efeitos Especialistas dão dicas de como agir no meio da crise A cronologia da crise financeira  Dicionário da crise    Meirelles explicou, em entrevista coletiva à imprensa, que a ação conjunta dos bancos centrais das maiores economias do mundo, realizada há algumas semanas, teve a finalidade específica de garantir liquidez em dólares e estava relacionada ao mercado financeiro internacional. Segundo ele, o modelo não seria aplicável à região.   Sobre a escalada do preço do dólar no Brasil e seus efeitos sobre a inflação, Meirelles lembrou que a moeda norte-americana "apreciou-se em relação à quase todas as moedas do mundo, incluindo as latino-americanas. Ele destacou que a maioria dos países da região, inclusive do Brasil, não tem meta de taxa de câmbio e que o objetivo dos bancos centrais é preservar a liquidez e o bom funcionamento do mercado de câmbio. "Estamos conseguindo esta preservação com êxito no Brasil, agindo a tempo".   Inflação   Durante a reunião com os colegas dos Bancos Centrais da América Latina, o presidente do BC brasileiro reiterou que os fundamentos da economia e do mercado no Brasil estão sólidos e que as medidas adotadas estão no caminho certo. "Do ponto de vista do Brasil, mais uma vez, concluímos que o Banco Central do Brasil está agindo prontamente e tomando as medidas necessárias, visando preservar a integridade e o bom funcionamento da sistema financeiro", afirmou.   Segundo Meirelles, "não há dúvida de que a crise não deixará qualquer país imune, como estamos verificando". Meirelles disse que "o importante é que temos as medidas necessárias para que o País tenha seus sistemas financeiro e de liquidez preservados; e seu sistema de comércio exterior preservado com capacidade de exportar e importar e minorar os efeitos da crise na economia brasileira".   Contrariando a informação de fontes do Ministério da Fazenda sobre a desistência da equipe econômica de perseguir o centro da meta de inflação em 2009, Meirelles afirmou que "o compromisso do BC é com a meta de inflação". Deixou, porém, aberta a possibilidade de revisões. "Certamente levamos em conta todas as evoluções do mercado, o impacto da economia nas projeções de inflação, os níveis de incerteza e o balanço de risco destas projeções. Vamos divulgar, no momento adequado, os nossos documentos oficiais à respeito, mas nosso compromisso é com isso: a manutenção da estabilidade de preços no País", detalhou.   Sobre a preocupação em relação à escassez da oferta crédito no País, Meirelles lembrou que "as medidas estão em andamento e uma boa parte do compulsório é liberada na medida em que haja a concessão de créditos." Ele citou como exemplo o caso da concessão de crédito para bancos médios e pequenos para que estes bancos possam continuar emprestando. "No caso das linhas de empréstimo com garantia de moeda estrangeira, nós também temos uma vinculação direta, onde os bancos são obrigados a conceder créditos diretamente", completou. "O BC está monitorando cuidadosamente esse quadro e do mercado de crédito e tomaremos as medidas necessárias para que seja preservada a integridade do sistema", afirmou.   O presidente do BC brasileiro ressaltou que a região hoje tem a uma situação fiscal melhor do que no passado. "A adequação do nível de reservas à conjuntura internacional, que é superior ao que havia no passado; as condições de funcionamento dos mercados estão melhor protegidas; a regulamentação prudencial tem avançado muito; e o que é importante é que a região dá mostra de que se encontra melhor preparada", ressaltou. Para Meirelles, o risco que a região corre neste momento "está todo relacionado com a evolução do que ocorrer com os Estados Unidos".     Outros países   Em outra entrevista, o presidente do Banco Central da Argentina, Martín Redrado, mostrou-se alinhado com as declarações de Meirelles. "Falar de coordenação regional ainda é uma palavra que não qualifica essa reunião" destacou, afirmando que "cada um dos países tem uma particularidade. Você sabe o fenômeno que ocorreu em Brasil, por exemplo, a quantidade de empresas que tomaram posição em mercado futuro. No caso do México, há empresas que tomaram distintas posições de risco. Cada país tem reagido com instrumento que conta".   Durante a reunião convocada pelo presidente do Banco Central do Chile, José De Gregório, para analisar a situação da crise internacional na América Latina, Redrado relatou que cada país fez uma apresentação de todos os instrumentos monetários e financeiros adotados nas últimas semanas. "Coincidimos em que estamos em uma posição muito sólida para enfrentar as turbulências financeiras internacionais. Além disso, pela primeira vez, contamos com instrumentos de liquidez, tanto em moeda local quanto em moeda estrangeira para atenuar os efeitos adversos".   Redrado destacou que "em outros momentos, a vulnerabilidade da América Latina era muito mais forte, como já vimos em outras situações e, agora, na crise internacional mais importante, talvez dos últimos cem anos, a América Latina está à altura das circunstâncias". Para o titular do BC argentino, "essa é uma das principais conclusões desse encontro; a outra é de que, fundamentalmente, há confiança em nós mesmos, de que temos os instrumentos para atenuar a crise".Segundo ele, os BCs dos países da região estão em contato permanente. "Há muita confiança mútua, há boa comunicação entre nossas equipes, há comunicação telefônica permanente. Creio que temos a situação bem monitorada, bem manejada. Cada um está seguro dos passos que está dando", concluiu.

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