BCs não estão mais no comando da situação, dizem economistas

Participantes do Fórum Econômico Mundial dizem que desempenho das instituições está aquém do esperado

Fernando Dantas, de O Estado de S. Paulo,

23 de janeiro de 2008 | 11h50

Com a economia global vivendo a sua pior crise em muitas décadas, os principais bancos centrais do mundo e as grandes instituições multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, não estão mais no comando da situação, e têm apresentado um desempenho muito aquém do esperado. Por outro lado, atores nebulosos e quase desconhecidos do grande público, como os fundos soberanos de investimentos de países exportadores de petróleo e da Ásia, tornaram-se os novos "powerbrokers" ("corretores do poder") globais. Leia mais na edição desta quinta-feira de O Estado de S. Paulo Estas foram as principais conclusões de um debate interativo na manhã desta quarta-feira, 23, no Fórum Econômico Mundial. O painel, que teve como protagonistas o megainvestidor George Soros e o prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz (dois contumazes críticos da forma como vem sendo gerida a globalização), incluiu perguntas em que a platéia votava, depois de um quente debate entre especialistas. O debate foi filmado e será exibido em diversas partes do mundo pela CNBC, canal de notícias econômicas e financeiras. A moderadora foi Maria Bartiromo, âncora da CNBC. A primeira pergunta foi sobre se os presidentes de bancos centrais perderam tanto o seu foco quanto o controle em relação à governança econômica. Depois de um acirrado debate envolvendo diversas personalidades do mundo econômico, 59% dos participantes, incluindo a platéia, votaram que sim, os bancos centrais perderam foco e controle, contra 41% que optaram pelo não. Encarregado de ser o principal defensor da posição contra os bancos centrais, Stiglitz discorreu sobre vários erros do Fed, banco central americano, como o fato de Alan Greenspan, o ex-chairman, ter defendido cortes de impostos, em 2001, que desequilibraram a economia americana em termos fiscais.  Ele notou também que o Fed foi complacente com o fato de que a renda da classe média e baixa dos Estados Unidos está estagnada há anos, e que o mecanismo pelo qual o consumo americano continuou crescendo, com a extração de renda de imóveis supervalorizados, era claramente insustentável. "A poupança foi a zero pela primeira vez desde a Grande Depressão", disse Stiglitz. Com a missão de defender os BCs, John Snow, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, lembrou que o mundo vive (ou, pelo menos, vivia até a segunda-feira) a fase conhecida como a "Grande Moderação", em que a inflação caiu para níveis muito baixos, e houve um crescimento forte e estável em grande parte da economia global. "Não sei se vocês se lembram de que tivemos inflação de até 18% nos Estados Unidos", disse Snow.  Ele atribuiu esta bonança ao bom desempenho dos bancos centrais nas últimas décadas, e lembrou que não se pode cobrar dos BCs uma previsão perfeita dos fatos (que é impossível). Quanto à questão de se os bancos centrais ainda são capazes de tomar decisões que interfiram de forma intensa e positiva para economia global, Snow citou o corte de 0,75 ponto do Fed na terça-feira. "Esta pergunta sobre se os BCs ainda são capazes de agir de forma ousada foi respondida ontem (terça)", ele disse. Lawrence Summers, ex-secretário de Tesouro dos EUA e um dos economistas mais influentes do mundo, optou pelo meio termo. Ele reconhece que os BCs são em boa parte responsáveis pela boa forma da economia global nas últimas décadas, mas falharam nos dois últimos anos por não tentarem conter as diversas bolhas que se formaram (imóveis nos EUA e mundo desenvolvido, ações asiáticas, commodities), e falharam especial nos últimos seis meses por terem reagido lentamente no estouro das bolhas.  A fala de Summers mostra como é dura a vida dos BCs: são criticados por não ter elevado mais os juros para conter a bolha, e por ter baixado demasiadamente devagar na hora em que o estouro faz os seus estragos.

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