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Bélgica, sem governo

Uma boa notícia sob o céu conturbado da União Europeia: na segunda-feira, a Estônia, nação do Báltico espremida entre a Rússia e a Polônia, aderiu valorosamente ao euro, a zona monetária que, no seio da UE, reúne os países que optaram por adotá-lo como "moeda comum".

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2010 | 00h00

Sim, valorosamente, porque é preciso ter a capacidade de jamais abrir mão da esperança para entrar, hoje, nesta "barca furada", que 51% dos alemães desejam abandonar a fim de reencontrar em lugar do euro: o bom, velho e rechonchudo Deutschemark.

Evidentemente, a façanha da Estônia será minimizada lembrando que não passa de um país minúsculo: tem apenas 1,3 milhão de habitantes. Não obstante, no momento em que a União Europeia duvida de si mesma, o ingresso na zona do euro de mais um país é aplaudido em Bruxelas, a capital da UE, como símbolo de esperança.

Infelizmente, como para acalmar os entusiasmos, um símbolo contrário é dado precisamente pela Bélgica, que abriga na sua capital, Bruxelas, o coração da União Europeia. A Bélgica celebrou segunda-feira um aniversário sinistro: não tem mais governo há 200 dias.

Qual o motivo de tamanha incapacidade? É que uma parte dos belgas fala flamengo e uma outra parte, a Valônia, fala francês. Além disso, os francófonos detestam os flamengos, que odeiam, por sua vez, os francófonos. E para complicar um pouco mais este imbróglio, Bruxelas, a capital, é tanto flamenga quanto valona. Os flamengos são os mais agressivos. Antes da guerra, o país flamengo era pobre e considerado um pouco atrasado, enquanto a Valônia francófona, com seu carvão e a siderurgia, era opulenta e desprezava os "caipiras" flamengos.

Hoje, é o contrário: a Valônia francófona está arruinada, enquanto a Bélgica flamenga está ativa e rica. Aliás, é no país flamengo que as pressões separatistas são mais acirradas: a Nova Aliança Flamenga, que obteve 30% dos votos nas eleições de junho, não esconde mais que, se necessário, aceitaria a divisão do país. Bart De Wever, seu líder, garante que não deseja a separação do Estado belga. Entretanto, prolongando a crise governamental, parece demonstrar que o Estado belga não é mais viável.

O paradoxo é que este mesmo país que inventou a União Europeia com a França e a Alemanha, que é a "vitrine" da vontade dos povos de se aproximar e se amar, é assombrado pela divisão, pelo conflito e pela "tribalização".

É como se as sociedades estivessem divididas entre duas paixões incompatíveis: de um lado, elas têm vontade de se aproximar, de suprimir as fronteiras, de cancelar as cicatrizes e as diferenças, de superar as divisões étnicas, religiosas, políticas ou históricas de modo a criar vastos conjuntos unificados, como a União Europeia.

De outro lado, os mesmos países têm a necessidade de reencontrar sociedades pequenas e calorosas, em que se agrupam as pessoas da mesma aldeia, da mesma floresta, da mesma religião, da mesma língua, pessoas que evitam os grandes horizontes e optam por voltar-se para dentro de si, em busca de suas raízes e de suas memórias, bem protegidas atrás de suas fronteiras. É este o drama da Bélgica. E indubitavelmente a Bélgica é o microcosmo da Europa. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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