Belluzzo critica excesso de zelo do BC

Diante dos resultados da inflação e da excessiva valorização do real, seria conveniente o Banco Central tomar outra atitude em relação à elevação dos juros, afirmou o economista da Universidade de Campinas (Unicamp) Luiz Gonzaga Beluzzo em entrevista ao programa Conta Corrente, da "Globo News". "Se formos fazer uma recuperação do que aconteceu esses anos todos, a inflação está sistematicamente em queda. Não se justifica esse excessivo zelo do Banco Central, até porque nós já estamos entrando numa zona um pouco perigosa no que diz respeito à taxa de câmbio."O economista mostrou preocupação com alguns riscos que circulam nos mercados financeiros internacionais. Ele citou como exemplo a declaração feita ontem pelo presidente do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA), Jack Guynn, sobre rumores de aumento de inflação norte-americana, o que provocou uma reação muito negativa no preço dos papéis brasileiros e no risco país. "Acho que o Brasil ainda está de certa forma exposto. E um episódio deste tipo seria muito ruim para os avanços alcançados nos últimos dois anos", alertou.Para Beluzzo, o governo brasileiro deveria ter aproveitado o momento de juros baixos nos Estados Unidos, de 4,5% ao ano, para baixar os juros do País e recompor reservas por um custo mais barato. "Estamos criando uma situação de vulnerabilidade que é desnecessária". O economista demonstrou cautela sobre a possibilidade de o Brasil manter um crescimento nas exportações de 30% ao ano. "Nós precisamos observar os próximos meses, porque alguns setores já estão se queixando da dificuldade de fechar contratos de exportação com a taxa de câmbio atual." Brilho menor - Segundo Beluzzo, o crescimento das exportações dos produtos básicos não será tão brilhante como no passado. "A China (grande consumidora mundial de matéria-prima) já está desacelerando e nós tivemos também uma queda do preço das commodities. Na verdade, já em 2004, os manufaturados foram os que tiveram desempenho mais favorável. É por isso que me preocupa essa questão do câmbio ao longo de 2005."A decisão do Banco Central de comprar dólares para recompor reservas está correta, afirma o economista da Unicamp. "Nós teríamos a necessidade de avançar na direção de reservas, de US$ 50 bilhões ou US$ 60 bilhões", disse. "Essa é a regra do jogo hoje no mundo inteiro. Diante das ameaças de instabilidade do dólar, de ajuste do balanço de pagamentos americanos, seria conveniente que nós tivéssemos essa defesa mais bem armada." De acordo com o economista, o crescimento de 20% nas vendas de eletroeletrônicos em 2004 demonstra o ótimo desempenho do setor. No entanto, Beluzzo alerta: "Se não tivermos uma melhoria nas condições de crédito, é possível que o ciclo de endividamento e, portanto, de consumo de duráveis, acabe se esgotando". Beluzzo destacou ainda "a necessidade de gerar emprego num volume suficiente e novos consumidores capazes de engatar nessa ciranda do consumo de duráveis".

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