Belo Monte e o futuro das energias renováveis

Após um período de carência de novos projetos, leilão da usina inicia uma nova fase na [br]construção de hidrelétricas no Brasil

Nivalde J. de Castro (1) e Roberto Brandão (2), O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2010 | 00h00

Artigo

O leilão de Belo Monte é uma reafirmação da vocação brasileira para gerar eletricidade de fontes renováveis. Com cerca de 90% da energia elétrica produzida por centrais hidrelétricas, o Brasil faz parte de um restrito clube de países capazes de atender ao consumidor com energia de fonte renovável, energia que é mais barata e não ajuda a produzir mais efeito estufa.

Após a virtual paralisação dos estudos de inventários das bacias hidrográficas nos anos 90, o País viveu uma carência de novos projetos de hidrelétricas.

Por causa da complexidade desses projetos e da necessidade de adequar os projetos existentes às novas e necessárias exigências ambientais, o País teve dificuldade para leiloar novos aproveitamentos hidrelétricos nos últimos anos.

A consequência dessa falta de projetos e leilões de energia teve como resultado direto a contratação em 2007 e 2008 de grande número de termoelétricas, a grande maioria movida a óleo combustível.

O leilão de Belo Monte, junto com as duas usinas em construção no Rio Madeira, licitadas em 2008 e 2009, representa uma nova fase na construção de hidrelétricas no Brasil. Trata-se do avanço da fronteira elétrica para a Região Amazônica.

Essa nova etapa será intensificada com os estudos de inventários do potencial hídrico desenvolvido ao longo dos últimos anos. Eles começam a amadurecer e com isso a carência de projetos de hidrelétricas está terminando.

Em breve, novas usinas nos Rios Teles Pires, Tapajós, Tocantins e Parnaíba estarão prontas para serem leiloadas. E todas as novas usinas se parecerão um pouco com Belo Monte: são projetos pensados de forma a minimizar e mitigar o impacto ambiental, reduzindo ao máximo a área alagada e mantendo a competitividade econômica e ambiental da matriz elétrica brasileira.

O fim das usinas com grandes reservatórios pode ser considerado um avanço do ponto de vista ambiental, mas trará consequências importantes para a matriz elétrica brasileira.

Belo Monte, assim como as novas usinas da Região Norte, terá a geração concentrada no primeiro semestre, época da cheia dos rios da margem sul do Rio Amazonas. Como não haverá um reservatório capaz de regularizar as afluências ao longo do ano, será preciso lançar mão de outras usinas para garantir o abastecimento de energia durante o segundo semestre.

Haverá, portanto, necessidade crescente de geração complementar à das hidrelétricas. Mas, como o Brasil tem grande vocação para energias renováveis, isso não representa necessariamente que a matriz elétrica se tornará menos limpa.

Há outras fontes de energia renovável no Brasil que se prestam muito bem a complementar a geração hídrica nessa nova fase em que não mais serão construídos reservatórios de regularização.

Os ventos, sobretudo os da Região Nordeste, são mais intensos durante a estação seca, representando uma bem-vinda complementaridade. A bioeletricidade provocada pela queima do bagaço da cana tem a mesma característica, pois concentra a oferta de energia na época de processamento de safra, isto é, durante o período mais seco do ano.

A bioeletricidade tem outras vantagens: está próxima aos maiores centros de consumo de energia elétrica e tende a crescer muito com as perspectivas do aumento da produção de etanol.

Dessa forma, o leilão de Belo Monte representa a afirmação de uma das melhores matrizes elétricas do mundo. A construção dessa usina se dará com o máximo respeito e adequação à legislação ambiental, graças à atuação dos organismos responsáveis e da crítica dos movimentos sociais e ambientais.

Assim o Brasil se destaca no cenário energético mundial, reforçando o caráter verde de sua economia, que fica mais competitiva, em termos de matriz elétrica, em relação aos outros países.

Esta será uma característica que dará ao Brasil um diferencial no comércio internacional, que cada vez mais impõe barreiras aos produtos de origem de países com matrizes poluidoras.

(1)PROFESSOR DO INSTITUTO DE ECONOMIA DA UFRJ E COORDENADOR DO GESEL - GRUPO DE ESTUDOS DO SETOR ELÉTRICO

(2)PESQUISADOR DO GESEL-UFRJ

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