Bruno Batista/VPR - 09/09/2021
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Belo Monte planeja parque solar para compensar baixa produção de energia

Pedido de liberação do projeto já foi enviado à Aneel; usina no Pará lida desde o início da operação com a baixa geração de energia

André Borges, Brasília

20 de março de 2022 | 05h00
Atualizado 21 de março de 2022 | 18h28

Em busca de alternativas para ampliar sua geração de energia, a concessionária Norte Energia, dona da usina de Belo Monte, pretende construir um parque solar dentro da área da própria hidrelétrica, instalada no rio Xingu, na região de Altamira, no Pará.

O Estadão apurou que um pedido para erguer o projeto já foi encaminhado pela empresa à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e que a usina fotovoltaica seria erguida em um espaço próximo à barragem principal da hidrelétrica, mais precisamente na vila que foi especialmente montada para abrigar milhares de trabalhadores durante a fase de construção da usina.

O projeto ainda está em fase de estudo, mas o plano é que a potência da planta solar possa chegar a 137,48 megawatts (MW), energia que seria suficiente para atender cerca de 300 mil pessoas.

As informações foram confirmadas pela concessionária à reportagem do Estadão. “A Norte Energia estuda a possibilidade de instalar uma planta solar na área utilizada pela Vila Residencial da época da construção. Por conta disso, solicitou à Aneel a outorga em questão.”

ALTERNATIVAS

Essa não é a primeira vez que a empresa busca projetos complementares para ampliar a geração de energia no entorno de Belo Monte. No fim de 2019, a concessionária chegou a procurar a agência reguladora e pediu autorização para construir usinas térmicas – mais caras e mais poluentes – nos arredores da hidrelétrica. Naquela ocasião, chegou a solicitar mudança em seu estatuto social, para que deixe de ser uma concessionária voltada a apenas um empreendimento e que possa “investir diretamente ou por meio da participação em outras sociedades, como subsidiária integral”.

Questionada a respeito de seu plano de construir uma usina térmica, a Norte Energia declarou que “não há previsão” para este projeto.

BAIXA PRODUÇÃO

As tentativas de incrementar a produção de energia estão diretamente associadas às limitações de produção de energia por Belo Monte, uma realidade que já era conhecida desde a concepção do projeto e que levou muitos engenheiros a questionarem, inclusive, a viabilidade financeira da usina.

Para viabilizar o leilão da hidrelétrica em 2010, o governo acionou a estatal Eletrobras, que detém 49,98% da concessionária. Os fundos de pensão Petros, da Petrobras, e Funcef, da Caixa, possuem 20% da usina. Os demais sócios são as empresas Neoenergia, Vale, Sinobras, Light, Cemig e JMalucelli. A concessionária vai explorar a hidrelétrica pelo prazo de 35 anos.

Passados 12 anos e mais de R$ 40 bilhões investidos em suas obras, a Norte Energia segue em busca de outras fontes de renda, enquanto se confirma aquilo que já estava previsto: todos os anos, Belo Monte tem de ficar desligada por vários meses, por causa do baixo volume de água que passa pelo rio Xingu no período seco.

O reflexo dessa forte oscilação nas vazões de água é o volume efetivo da energia produzida pela hidrelétrica. Com 11.233 MW de potência, Belo Monte ostenta o título de maior usina brasileira – Itaipu tem 14 mil MW, mas é binacional. Mas na realidade a usina da Norte Energia entrega, efetivamente, apenas uma média de 4.571 MW por ano.

No início deste ano, em período de cheia do Xingu, as turbinas da hidrelétrica funcionam próximas à plena carga e entregam mais de 9 mil megawatts por mês.

Essa geração, no entanto, despenca para cerca de 300 MW em meses como agosto, setembro e outubro, forçando o desligamento da casa de força principal de Belo Monte, sob o risco de suas turbinas pifarem, em decorrência do baixo volume de água.

Outro lado

Após a publicação desta reportagem, a Norte Energia declarou que “o projeto em questão visa a expansão da atuação da empresa naquela região, neste caso gerando o máximo aproveitamento do potencial solar ali verificado e contribuindo com a oferta ao país de um maior volume de energia limpa”.

Segundo a concessionária, “ao contrário do que informa o título, não há o propósito de ‘compensar baixa produção de energia’, visto que a UHE Belo Monte tem gerado e disponibilizado o volume de energia compatível com o previsto pelo projeto”.

Em mais de uma ocasião, conforme aponta a reportagem, a Norte Energia justificou que pretendia ampliar a geração de energia por meio de sua concessionária, tanto que apresentou pedido para que deixasse de ser uma “sociedade de propósito específico”, ou seja, que não limitasse apenas ao empreendimento hidrelétrico que administra.

Cabe esclarecer ainda que uma usina solar com potência de 140 MW, independentemente de o mercado consumidor que vá atender, figuraria como uma das maiores do País, em relação a empreendimentos deste tipo de fonte.

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