Beltrão, um cidadão com ideia fixa

O presidente João Baptista Figueiredo pode ser criticado por muitas coisas, mas um fato mais que positivo de seu governo foi ter aceitado as ideias do saudoso ministro Hélio Beltrão e criado o Ministério Extraordinário da Desburocratização, denominado então Programa Nacional de Desburocratização, em julho de 1979.

Depoimento: Mário Viana, jornalista e assessor de comunicação,

26 de setembro de 2013 | 19h13

Reuniu uma pequena equipe de abnegados assessores, cada um em sua especialidade: educação, justiça, recursos humanos, planejamento e outras atividades relacionadas ao desenvolvimento organizacional.

Mãos à obra. Instalados no próprio Palácio do Planalto, vizinho ao gabinete presidencial, começaram a estudar os vários nós que atrasavam, e muito, o desenvolvimento do País.

Mas a dificuldade principal era a de romper as barreiras para mudanças. A máquina governamental era e, infelizmente, continua sendo totalmente avessa a mudanças.

Citemos algumas das conquistas mais perceptíveis que, para serem promulgadas, atravessaram um enorme cipoal burocrático: eliminação da inútil plaqueta; modernização das regras da fiscalização de passageiros retornando do exterior; eliminação da famigerada certidão de vida; mudança nas regras da cópia autenticada; estatuto da microempresa; e criação dos juizados de pequenas causas, o mais difícil de ser aprovado pela força do lobby do Poder Judiciário.

Candidato potencial. Beltrão quando alguém o rotulava de "Don Quixote" ficava bravo, pois louco não era, o que estava fazendo era pelo bem do Brasil mesmo. Não foi por outro motivo que por onde passava era aclamado e em alguns cantos chegou a ser considerado como um candidato potencial à presidência da República. Mas os tempos eram outros. "Ninguém mora na União, o cidadão mora no município", insistia Beltrão em defesa da descentralização, "o desonesto sempre arruma um jeito de burlar a lei, o excesso de leis só prejudica o cidadão honesto".

Em todas as suas andanças pelo País, Beltrão divertia as plateias contando os absurdos casos de excesso de burocracia. E demonstrava com exemplos concretos, tais como, ao cumprimentar os membros das mesas em evento, citar somente um nome, em nome do qual saudava os demais.

Infelizmente, a grama voltou a crescer e vários dos atos desburocratizantes perderam a vida e voltaram a atormentar os brasileiros.

Tive a honra de participar de sua pequena equipe, como assessor de comunicação, e mais honra ainda com a convivência diária durante sua permanência em Cleveland, nos Estados Unidos, quando se submeteu à uma cirurgia cardíaca.

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