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Bem na foto

Acordo com UE melhora imagem do Brasil. Mas impõe nova agenda social

Cida Damasco, O Estado de S. Paulo

01 de julho de 2019 | 05h00

A cada viagem internacional de Bolsonaro, mesmo quem tem fé cega no governo não consegue disfarçar uma certa apreensão. Seis meses de mandato, e uns continuam criticando a sub-representação do País, outros uma agenda incompatível com os novos tempos. Os temores manifestaram-se logo depois do Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, onde o encolhimento do País no cenário internacional transpareceu no econômico discurso de seis minutos do presidente. E foram mantidos na ida dele aos Estados Unidos, onde a submissão a Trump resultou em algumas concessões feitas ao parceiro, sem a garantia de uma contrapartida imediata para o Brasil. 

Não foi diferente, agora, na viagem ao Japão, para a reunião do G-20, o clube que reúne as 19 maiores economias do mundo e mais o representante da União Europeia (UE). O episódio constrangedor do transporte de cocaína no avião que dá suporte à comitiva do presidente azedou ainda mais o início da viagem. Na volta, porém, com uma rota livre de “turbulências”, a tensão e o mal-estar deram lugar a um alívio. Na verdade, mais que alívio. Depois de 20 anos de negociações, finalmente foi anunciado o acordo entre a União Europeia (UE) e o Mercosul – altamente prioritário para o País, apesar da rejeição ao bloco alardeada pelo ministro Paulo Guedes no começo do governo. 

Nos cálculos do Ministério da Economia, o tratado, que engloba bens, serviços, investimentos e compras governamentais, trará benefícios astronômicos ao Brasil: em 15 anos, mais US$ 87,5 bilhões no PIB, mais US$ 113 bilhões nos investimentos e mais US$ 100 bilhões nas exportações. Em tempos de guerra comercial entre Estados Unidos e China, avanço do protecionismo e primazia de acordos bilaterais sobre acordos de blocos, o governo Bolsonaro dá sinais de que pretende avançar na abertura da economia, ponto central do seu programa econômico. Com todos os tropeços na área externa e uma diplomacia contaminada pela ideologia e pela religião, este é, sem dúvida, um gol político do governo brasileiro, que vem colecionando derrotas em áreas variadas.

Mesmo considerando-se que os ganhos podem não ser tão grandiosos, que a atual equipe só participou da finalização das conversas, retomadas em 2010, e que o acerto ocorre num momento de extrema fragilidade econômica de Brasil e Argentina. 

Trata-se de uma oportunidade e tanto para melhorar a imagem do País, que estava mal na foto justamente pelos retrocessos na área social do governo Bolsonaro. É preciso mais, contudo, para comprovar que essa mudança não se limita a efeito de photoshop ou de algum daqueles filtros que animam os posts nas redes sociais. Decididamente, as cotoveladas de Bolsonaro e do general Augusto Heleno, na chegada ao Japão, podem até funcionar com o eleitorado cativo do presidente, mas não pegam bem junto a públicos mais amplos – e chegaram a ameaçar o fechamento do acordo com a UE. 

A primeira-ministra alemã, Angela Merkel, pediu uma conversa franca sobre o avanço do desmatamento no Brasil. E o presidente da França, Emmanuel Macron, subordinou a assinatura do documento à reafirmação dos compromissos assumidos no acordo climático de Paris. Bolsonaro reagiu de pronto afirmando que, em matéria de política ambiental, a Alemanha tem muito que aprender com o Brasil, e o general, cada vez mais influenciado pelo estilo do chefe, respondeu com um diretíssimo “vão procurar sua turma”. Como já se esperava, venceu o pragmatismo de todas os participantes. Bolsonaro acabou concordando com os termos do pacto do clima e saiu o acerto comercial entre a União Europeia e o Mercosul – cuja entrada em vigor depende, ainda, do aval dos Parlamentos dos países envolvidos, e deve demorar uns dois anos. 

Os ganhos desse acordo, contudo, não se esgotam nos números. Daqui para a frente o Brasil terá de se alinhar aos chamados avanços civilizatórios, muitos deles detalhados no documento assinado na semana passada. Respeito à preservação das florestas, demarcação das áreas indígenas, direitos humanos e outros temas incômodos, pelos quais Bolsonaro e parte de sua equipe não têm demonstrado grande apreço, são condições para que o Brasil continue sócio do clube. A nova imagem do País está no modo “teste”.

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