Bem-vindos à segunda rodada da crise

Enfim, o mundo parece respirar aliviado com a paulatina normalização dos mercados financeiros globais e as reações favoráveis das principais bolsas acionárias. Os mercados interbancários voltaram a funcionar próximos da normalidade e os spreads entre a taxa Libor de 3 meses e a taxa de juros de 1 dia de prazo - o principal indicador de tensões no mercado de crédito entre bancos -, que atingiram 400 pontos base em outubro de 2008, reduziram-se para níveis próximos de 40 pontos.

Alkimar R. Moura*, O Estadao de S.Paulo

11 de setembro de 2009 | 00h00

No setor real, há indícios de que as principais economias industrializadas apresentam sinais de recuperação na atividade econômica, após a derrocada iniciada há quase um ano. Nos EUA, as vendas de casas para famílias sem filhos pararam de cair e começaram um ligeiro movimento de alta, sobretudo para residências usadas. A queda na demanda final, que havia sido de 6,5%, no 1º trimestre de 2009, desacelerou para 1,5% no trimestre mais recente, configurando um quadro menos dramático para a recessão norte-americana no decorrer deste ano. As projeções mais recentes do FMI indicam crescimento de 2,5% da produção mundial em 2010, comparado à queda provável de 1,4% neste ano.

Essa amenização da crise global só foi alcançada por meio da atuação das políticas econômicas compensatórias nos principais países desenvolvidos e em economias emergentes. No tocante à política monetária, os bancos centrais promoveram maciças injeções de liquidez, aliadas à manutenção de taxas de juros próximas a zero. Nos EUA, a injeção de crédito e moeda pelo Fed quase triplicou o balanço desse banco central, em operações com ativos os mais heterodoxos e dignos de figurarem em demonstrações financeiras de autoridades monetárias nos países do antigo Terceiro Mundo. As políticas fiscais também foram expansionistas, por meio do aumento de gastos públicos e da redução de impostos. Essa combinação de políticas foi capaz de impedir o agravamento da crise, embora seus efeitos tenham sido mínimos até agora para diminuir a taxa de desemprego naquele país. De outro lado, a economia chinesa mostra sinais de vitalidade, derivados de um impulso fiscal sem precedentes, o que deve também ajudar a conter a tendência à queda na demanda mundial.

Apesar das melhorias acima, ainda não há motivos para celebrarmos o início de uma sólida recuperação da economia internacional, sobretudo quando ainda persistem problemas nos balanços dos bancos. Se o sistema bancário foi capaz de restabelecer os fluxos de crédito entre as instituições financeiras, não se pode dizer o mesmo para aquele crédito vital para financiar a atividade econômica: os empréstimos bancários para empresas, famílias e indivíduos. Esse canal de crédito ainda se encontra travado e os riscos de inadimplência ainda são elevados nas operações típicas de bancos comerciais, como empréstimos para bens duráveis, especialmente automóveis, crédito hipotecário para imóveis comerciais, crédito para capital de giro para médias e pequenas empresas industriais e comerciais e financiamentos com cartões de crédito. Os sinais de deterioração na qualidade destes créditos estão aparecendo sob a forma de atrasos e de aumento nas perdas observadas. O número de bancos com problemas e postos sob a vigilância do FDIC (o fundo garantidor de depósitos nos EUA) atingiu 416 recentemente, a cifra mais elevada nesta década.

Isso indica que o sistema bancário norte-americano ainda não se estabilizou e novas surpresas poderão ocorrer com bancos voltados às operações convencionais de crédito. Finalmente, constata-se ainda uma piora no rating de crédito das grandes corporações, embora tenha havido uma moderação naquele declínio.

Pode-se dizer que a primeira rodada da crise se iniciou com os excessos do mercado financeiro e daí contaminou a economia real, afetando empresas e indivíduos. Na segunda rodada ocorre o movimento inverso: as dificuldades das empresas, sobretudo das pequenas e médias, e a ainda elevada taxa de desemprego aumentam a probabilidade de perdas nos empréstimos e podem provocar nova onda de prejuízos aos bancos. É provável que este novo ciclo de perdas seja mais diluído, tanto no tempo, pois os bancos não têm de marcar seus créditos a mercado, quanto ao número de bancos comerciais envolvidos. De qualquer maneira, qualquer declaração de vitória contra a crise financeira ainda parece prematura, até que se desenrole esse novo episódio de purgação dos excessos de crédito do passado recente.

*Alkimar R. Moura é professor de Economia da FGV-SP

O colunista Celso Ming está em férias.

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