AP Photo/Manuel Balce Cenete
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Ben Bernanke: o timoneiro da crise deixa o Fed

Gestão de Bernanke foi marcada pela turbulência, e só o tempo dirá se suas decisões foram acertadas

Jonathan Spicer e Ann Saphir, Reuters/O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2014 | 02h21

Ben Bernanke não hesitou em responder a quem perguntava se estava convencido de que a sua solução para a Grande Recessão funcionaria. "Bom, o problema do afrouxamento quantitativo (QE na sigla em inglês) é que ele funciona na prática, mas não funciona na teoria", foi a resposta rápida do presidente do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) no início de janeiro, durante sua última aparição em público.

Ele se referia à sua decisão tomada nos dias mais difíceis da crise financeira de implementar um programa sem precedentes de compras maciças de títulos, medida conhecida como Quantitative Easing, afrouxamento quantitativo (QE). O objetivo era baixar ainda mais os juros de longo prazo considerando que os juros do overnight, o principal recurso econômico do Fed, já estavam perto de zero. As compras adotadas no fim de 2008 continuam até hoje. Elas já chegaram a quadruplicar o balanço do Fed para US$ 4 trilhões.

Na quarta-feira, Bernanke, 60, encerrou tranquilamente sua última reunião para a definição de políticas depois de oito anos inusitadamente tumultuados à frente do banco central mais influente do mundo.

Quando ele se aposentar, hoje, o enorme balanço do Fed permanecerá em seu legado. Entretanto, advertem os críticos, ele contém sementes que poderão gerar uma inflação ou bolhas dos preços dos ativos.

As avaliações iniciais foram em geral positivas. O ex-professor de Princeton foi elogiado como a mão firme que ajudou a conduzir os EUA e as economias mundiais em meio ao risco de uma recessão muito mais dolorosa. Ele inundou os mercados financeiros de liquidez pelo número enorme de programas criados às pressas, imprimiu trilhões de dólares em três rodadas de QE; e prometeu audaciosamente que manteria o estímulo vigorando durante anos, vinculando os baixos juros a determinados resultados econômicos numa estratégia que foi emulada por outros bancos centrais.

Bernanke, um dos principais estudiosos da Grande Recessão, tinha um profundo conhecimento teórico do que era preciso fazer diante do pânico bancário que se difundia rapidamente. E pôs em prática este conhecimento quando a crise financeira atacou. "Bernanke queria fazer coisas criativas e agressivas", disse Laurence Meyer, um ex-presidente do Fed e um dos fundadores da empresa Macroeconomic Advisers.

Mas como seu predecessor, Alan Greenspan - que foi elogiado quando deixou o cargo, em 2006, e posteriormente considerado o artífice principal da crise subsequente -, o legado de Bernanke só ficará claro com o tempo.

Nova tarefa. Boa parte desse legado será escrito pela vice-presidente do Fed, Janet Yellen, que assumirá amanhã as rédeas da instituição. Ela herda a tarefa de reduzir as compras de títulos e decidir quando elevar os juros. Ela precisará encontrar uma maneira de diminuir o balanço do Fed para um tamanho mais confortável de aproximadamente US$ 1 trilhão, sem fazer descarrilar a economia.

Para Allan Meltzer, um importante historiador do Fed, nenhum resultado parece bom para Bernanke. "Se eles andarem depressa demais, teremos uma recessão. Se andarem devagar demais, teremos uma grave inflação. Se não fizerem nem uma coisa nem outra, acabaremos com ambos os resultados."

Gestão de crise. Embora Bernanke tenha defendido as medidas agressivas tomadas pelo Fed desde 2008, ele foi um dos maiores críticos de sua própria atuação por não se dar conta dos sinais latentes da crise no mercado hipotecário nos EUA e nos bancos de Wall Street.

Mas longe de punir Bernanke, que fizera parte do conselho de direção do Fed de 2002 a 2005, os políticos preocupados com a reforma de Wall Street expandiram a autoridade de supervisão do Fed.

Na época em que o ex-presidente George W. Bush nomeou Bernanke para a presidência da instituição, em 2006, a bolha hipotecária da habitação já tinha chegado a dimensões enormes. Quando explodiu, em 2007, o presidente do Fed demorou para se dar conta da rapidez com que aqueles problemas poderiam cair sobre o mundo, contagiando os bancos mal regulamentados e provocando o pânico entre os investidores.

Somente duas das companhias de investimento americanas, o Goldman Sachs Group Inc. e o Morgan Stanley, sobreviveram à crise financeira de 2008 - e apenas por causa de uma ajuda impopular com o dinheiro dos contribuintes. Atraindo mais críticas maldosas, o Fed também orquestrou uma ajuda com dinheiro dos contribuintes no total de US$ 182 bilhões da seguradora American International Group (AIG).

Quando não havia como desconhecer a gravidade da situação, o Fed fez tudo para evitar o pânico e tentar sustentar a economia em declínio. Com a instalação da pior recessão das últimas décadas, o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA apresentou uma contração de 8% no final de 2008, e o desemprego chegou a 10% no ano seguinte.

Embora o crescimento tenha sido variável - o ritmo se aproximou dos 4% no segundo semestre de 2013, e a taxa de desemprego caiu par 6,7% -, o balanço é extremamente positivo para Bernanke na sua despedida.

Apesar disso, os índices de aprovação de Bernanke são de apenas 4%, embora 25% dos americanos não tenham opinião formada, segundo pesquisa divulgada ontem pela Gallup. O índice de aprovação de Greenspan quando deixou o cargo foi de 65%.

TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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