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Beneficiados pela crise, outlets vão dobrar em 3 anos

Associação prevê que o Brasil terá 22 empreendimentos até 2019; com inaugurações previstas para 2017, receita deverá crescer 40%

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2016 | 05h00

Neste momento de crise, o setor de outlets – centros de compra que vendem produtos com desconto – está preparando um salto vigoroso nos próximos anos. Empresas conhecidas pelos shopping centers tradicionais, como a General Shopping e a Iguatemi, estão concentrando seus esforços de expansão no segmento. Como o consumidor está com o orçamento curto e não existe a previsão de uma virada rápida da economia, o varejo parece ter entendido que, para conseguir crescer, terá de oferecer boas barganhas.

Especializada no segmento, a Associação Brasileira de Outlets (About) espera que o setor praticamente dobre de tamanho até 2019. Só para o ano que vem, a consultoria prevê a inauguração de mais quatro empreendimentos. A projeção é que essas aberturas inflem o faturamento do setor em 40% no próximo ano, para R$ 4,5 bilhões. Ao fim de 2019, a expectativa é que o País chegue a 22 outlets, dez a mais do que a quantidade atual.

Embora o mercado de outlets seja bem menos desenvolvido do que o de shopping centers – que já tem mais de 500 empreendimentos no País, segundo a Abrasce, entidade que reúne empresas do setor –, as companhias estão vendo nos centros de desconto uma forma de crescer gastando menos. Segundo Sérgio Zukov, diretor de operações da Iguatemi, construir um outlet novo custa R$ 150 milhões, enquanto o desembolso para um shopping center pode chegar a R$ 300 milhões.

‘Cartilha’. Atualmente com 17 shopping centers no portfólio, a Iguatemi não tem nenhuma nova inauguração neste setor nos próximos três anos. Dona de um outlet em Novo Hamburgo (RS), a companhia prevê mais três empreendimentos do gênero para os próximos anos. O executivo diz que a companhia segue de perto a cartilha clássica desse tipo de empreendimento, criada nos EUA nos anos 1980: construções a custos baixos, fora do centro das cidades e em regiões de alta concentração de renda.

Um dos novos empreendimentos da Iguatemi será inaugurado em Porto Belo, cidade que fica na região de Florianópolis. A ideia é atender aos turistas que queiram incluir pelo menos um dia de compras na temporada de verão. “Já estamos testando isso em Novo Hamburgo. As operadoras de turismo já incluem, nos pacotes para visita a Gramado, um dia de compras no outlet”, conta.

Entre as empresas mais tradicionais de shopping center, no entanto, a General Shopping saiu na frente quando o assunto é outlet. Ela é dona do primeiro empreendimento do renascimento do setor no País – o Outlet Premium da Rodovia dos Bandeirantes, em Itupeva (SP). A companhia tem hoje quatro outlets em operação e prevê dobrar essa quantidade até o fim de 2018, segundo Alexandre Dias, diretor-presidente da General Shopping. 

O executivo não revela onde as novas unidades serão instaladas, mas diz que todas seguirão o padrão estabelecido pelo Outlet Premium, presente também no Rio de Janeiro, em Salvador e em Brasília. Essa padronização revela uma estratégia diferente do que adotou a companhia nos shopping centers. A empresa tem shoppings de grande porte (caso do Internacional Shopping Guarulhos), voltados à classe C, temáticos (como o Auto Shopping Internacional) e até de bairro. No terceiro trimestre, a companhia se desfez de dois shoppings do portfólio.

Com a experiência que adquiriu no ramo, Dias conta que duas decisões são fundamentais na construção de um outlet: a localização e o mix de lojas. “Não adianta construir um empreendimento em uma estrada cercada por uma região pobre. Se o mix de lojas for inferior, o outlet também não vai ‘performar’ bem.”

Cautela na expansão. Quem passar pela rodovia Régis Bittencourt, na altura de Taboão da Serra, vai se deparar com um “novo” outlet a partir desta quinta-feira. O Taboão Plaza Outlet, no entanto, nada tem de novidade. Na verdade, o que ocorreu foi uma adaptação do centro de compras, antes utilizado pelo Outlet Casa, que tinha a proposta de vender móveis e objetos de decoração com descontos. Lançado há cerca de dois anos, o empreendimento jamais decolou. Por isso, os empreendedores – que dizem ter investido R$ 100 milhões no negócio – decidiram testar uma nova proposta.

Capitaneado pela empresa Gold Sea, de Alexandre Caiado, o Taboão Plaza Outlet foi construído a partir da captação de um fundo imobiliário. Nessa nova encarnação do negócio, disse Caiado ao Estado, a meta é atrair marcas nacionais e estrangeiras com uma proposta de aluguel calculado com base na receita do varejista. Ou seja: o outlet vai dividir o risco com o varejista. Apesar de a inauguração ser em três dias, parte dos espaços do Taboão Plaza ainda está disponível.

Segundo André Costa, sócio-fundador da Agência Brasileira de Outlets (About), esse não é o único exemplo de empreendimento que, depois de algum tempo, precisa se reinventar por não conseguir atrair interesse de lojistas e de consumidores. A About, além de reunir números do setor, também é responsável pela formatação de projetos de centros comerciais – foi ela a responsável pela concepção do primeiro Outlet Premium, posteriormente repassado à General Shopping. 

Costa diz que, nos últimos tempos, a empresa tem sido procurada por shopping centers em dificuldades, que têm a intenção de transformar seus negócios em outlets. O “retrofit”, no entanto, raramente costuma dar certo. Um desses raros exemplos é um projeto de Lorena (SP), o Eco Vale, que foi transformado de shopping em outlet. “Mas se tratava de uma oportunidade rara. Era uma construção térrea, de baixo custo, na beira de uma rodovia importante, que tinha aderência com o conceito de outlet.” 

Entre as empresas de shopping center, há quem recomende cuidado com a expansão muito acelerada dos outlets. Isso porque, ao contrário do que ocorre com as grandes marcas estrangeiras, as varejistas brasileiras não têm produção própria para a venda em lojas de desconto, como é comum nos Estados Unidos. De acordo com fontes do setor, isso pode até não ser problema agora, em um momento em que a crise obriga que boa parte da produção das lojas seja vendida com desconto, mas pode afetar a qualidade dos empreendimentos no futuro.

A JHSF, especializada em empreendimentos comerciais voltados às classes A e B, abriu na rodovia Castello Branco, a cerca de 40 km da capital paulista, o Catarina Fashion Outlet, que concentra marcas de luxo como Rimowa, Ermenegildo Zegna, Burberry e Hugo Boss, diz que não pretende abrir novos empreendimentos do gênero no curto prazo, por temer que as grifes não tenham como atender a vários outlets.

“Entendemos que é possível (expandir o conceito do Catarina para outras regiões), mas não podemos ignorar que o lojista ainda não tem a flexibilidade e o volume de mercadoria necessários para acompanhar uma expansão desse mercado no curto prazo”, disse Ana Auriemo, diretora de Planejamento da JHSF, por e-mail. 

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