Benefício a funcionárias gera polêmica

Congelamento de óvulos oferecido como incentivo por empresas como Apple e Facebook divide mulheres no setor de tecnologia

Darlena Cunha, especial para The Washington Post, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2014 | 02h05

A julgar pela reação da mídia à promessa de Apple e Facebook de congelamento gratuito de óvulos, as mulheres deveriam se sentir gratas pela oportunidade de ter mais opções reprodutivas. Ou talvez estarrecidas com a mensagem implícita que estas grandes empresas de tecnologia estão enviando a suas empregadas mulheres, a saber: esperem e trabalhem durante seu apogeu físico e mental aqui antes de ter filhos.

Na prática, é mais complicado. Mulheres em carreiras de alta intensidade têm dificuldades em conciliar seus empregos com suas vidas pessoais. Honestamente, toda ajuda é bem-vinda: congelamento de óvulos, creches, licença maternidade suficiente, auxílio para adoção ou quaisquer outros serviços que as companhias nos possam oferecer. As companhias precisam contratar novos talentos. Elas precisam convencê-los a ficar. As mulheres estão saindo em grandes quantidades de empresas. Numa pesquisa com 716 mulheres que largaram o campo de tecnologia para nunca mais voltar, dois terços citaram a maternidade como fator decisivo. Um relatório de 2009 do National Center for Women & Information Technology corrobora essas revelações, afirmando que 56% das mulheres deixam o campo de tecnologia no meio do caminho de suas carreiras. Para muitas, o setor não dava margem para acomodar as necessidades de uma família.

Tome-se o caso de Hap Svadja, uma fotógrafa e ex-desenvolvedora de internet para uma empresa de tecnologia em São Francisco. Ela tem três filhos. Em vez adiar o planejamento de sua família até estar na faixa dos 40, ela teve os três quando estava na faixa dos 20. Svadja está agora na faixa dos 30 com três adolescentes que são suficientemente maduros para exigir menos dela. Eles vão à escola e podem tomar conta de si por algumas horas quando chegam em casa.

Nos fins de semana, eles saem com amigos ou podem ir sozinhos ao cinema. Ela tem tempo e espaço para dedicar a sua carreira. Ela se declarou um pouco preocupada sobre o que a política de congelamento de óvulos diz a mulheres.

"Pessoalmente, as vejo como um pouco abusivas", ela disse das novas políticas. "O raciocínio implícito é que você vai trabalhar tão duro que poderá precisar desses óvulos mais tarde". Mas, acrescentou, "posso vê-lo também como um benefício para as que querem postergar o planejamento familiar em benefício de suas carreiras por um tempo".

Jessica Wallace, que já trabalhou na Microsoft com um filho pequeno em casa, não vê da mesma maneira. "Não vejo nisso nenhuma mensagem nefasta, dizendo a mulheres para não terem filhos", disse Wallace. "A Microsoft costumava oferecer até US$ 15 mil para tratamentos de infertilidade. Suponho que alguém poderia interpretar isso como 'trabalhe em tempo integral para nós até passarem seus anos melhores para ter filhos, e nós a ajudaremos mais tarde', mas nunca conheci alguém que pensasse desta maneira."

Dificuldades. Mas a coleta de óvulos também pode ser tediosa e difícil. As novas tecnologias permitem que embriões sejam implantados em cinco dias, em vez de três, melhorando a taxa de concepção para mais de 60%. Até agora, porém, somente 10% das mulheres estão optando por isso em vez do método testado de implantar quatro óvulos com três dias de gestação e rezar pelo melhor, uma prática que frequentemente resulta em múltiplos. Ainda assim, um óvulo congelado e até mesmo o melhor procedimento de fertilização in vitro (FIV) não é um bebê garantido. Muitas mulheres enfrentam múltiplas rodadas de tratamento antes de um óvulo se fixar.

Ademais, o congelamento de óvulos é um processo de duas semanas, com tempo de recuperação de outras duas, envolvendo injeções de hormônios e sedação. Para não mencionar que ter filhos em qualquer idade e criá-los é exaustivo. E só fica mais difícil quando se é mais velho. A professora Hillary Carpinella enfrentou várias rodadas de tratamentos de FIV, que resultaram em um par de gêmeos e outro filho, todos com menos de 5 anos agora. "Eu questiono a precaução de mulheres que estão adiando famílias", disse Carpinella. "Estou com 34 anos, e fico exausta ao fim de todo santo dia. Não acredito que poderia fazer isso daqui a 10 ou 15 anos e ter energia para cuidar deles e dedicar a atenção e o tempo que precisam." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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