Bernanke não deve dar sinais sobre juro aos mercados

Aumento da taxa de redesconto pode ser sinal de que juros devem subir em breve no país

Agência Estado,

23 de fevereiro de 2010 | 17h57

Os investidores têm ficado nervosos nos últimos tempos, tentando entender se o Federal Reserve está enviando sinais de que aumentos na taxa de juros estão chegando. Se eles estão esperando conseguir mais clareza do presidente do Fed, Ben Bernanke, nesta semana, eles deverão ficar desapontados, segundo a coluna Fed Watch, da Dow Jones.

 

Na semana passada, o Fed aumentou a taxa de redesconto, que cobre dos bancos nos empréstimos de emergência, o que os mercados tomaram como um sinal de que um aperto de crédito ao redor da economia poderá ser o próximo passo. Desde então, autoridades do Fed têm dito que não estão seguros sobre quando os custos dos empréstimos para empresas e consumidores poderão também subir.

 

Espera-se que Bernanke demonstre o mesmo ponto de vista quando ele apresentar seu relatório semestral de política monetária ao Congresso americano na quarta-feira, ressaltando aos congressistas que o aumento na taxa de redesconto não significa que a principal taxa básica de curto prazo do Fed será elevada em breve.

 

O caminho da meta da taxa dos Fed funds, pela qual os bancos fazem empréstimos entre si no overnight, depende de como a recuperação evoluirá, provavelmente dirá o presidente do Fed. E esta continua sendo uma previsão muito difícil de ser feita.

 

Emergindo da pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial, a economia dos Estados Unidos cresceu sensivelmente no final de 2009, com o impulso da recomposição dos estoques das empresas. Mas espera-se que um motor chave para o crescimento como o gasto do consumidor continuará limitado pelo alto desemprego durante 2010. Enquanto isso, os preços ao consumidor de itens voláteis como alimentos e energia caíram em janeiro pela primeira vez desde 1982, um sinal de fraqueza para a economia no início de 2010.

 

Funcionários do Fed veem a taxa de desemprego permanecendo num nível alto, ao redor de 9,5%, no último trimestre de 2010 e a inflação num nível baixo, de ao redor de 1,5%, no mesmo período, de acordo com projeções feitas há um mês pelo braço de formuladores de políticas do BC americano. Espera-se que Bernanke use as mesmas projeções no seu depoimento ao Comitê de Serviços Financeiros no Congresso na quarta-feira. O presidente do Fed deverá apresentar o mesmo relatório a um comitê do Senado na quinta-feira.

 

Até agora neste ano, as projeções do Fed têm ressaltado questões sobre as perspectivas da economia. Dirigentes do banco central disseram após seu último encontro, em 26 e 27 de janeiro, que as incertezas que rondam suas projeções sobre desemprego e inflação eram "extraordinariamente altas em relação às normas históricas".

 

O vice-presidente do Fed, Donald Kohn, disse aos banqueiros no mês passado que a política monetária estava em "águas inexploradas", alertando que os investidores precisam começar a se preparar agora para o risco de que as taxas de juros se movam rapidamente em direções inesperadas, o mais provavelmente para cima.

 

Como Kohn, Bernanke pode alertar que existe uma longa lista de fatores que podem afetar as projeções para a taxa, incluídos um déficit orçamentário em alta, demanda estrangeira por dívida americana e a força da recuperação.

 

Mas é improvável que ele apresente mais informações além da linha padrão, a de que o banco central espera manter a meta da taxa dos Fed funds próximo a zero por um "período prolongado" - geralmente entendido como significando pelo menos vários meses - devido a uma leve recuperação.

 

Bernanke deverá fazer eco ao que as autoridades do Fed dizem desde que a taxa de redesconto foi aumentada em um quarto de ponto porcentual para 0,75% em 18 de fevereiro - que a mudança era apenas uma "maior normalização" dos programas de empréstimos de emergência, graças a melhoras nos mercados financeiros.

 

Muitos investidores veem a mudança como um primeiro passo em direção ao aperto no crédito, com o dólar subindo frente às grandes moedas sob expectativas de que o Fed irá aumentar as taxas antes do que os outros grandes bancos centrais.

 

Para sinalizar que nenhum aperto no crédito está próximo, o presidente do Fed poderá apontar para a contínua fraqueza na economia, especialmente uma taxa de desemprego que se prevê estará ao redor de 8,5% ainda no final de 2011.

 

Com a economia americana continuando a eliminar os empregos, um foco principal da audiência será examinar as opções de políticas disponíveis ao Fed para cumprir sua missão de apoiar o emprego máximo, disse em memorando o Comitê de Serviços Financeiros do Congresso.

 

O total de empregos não agrícolas caiu 20.000 em janeiro, em seguida a uma queda de 150.000 vagas em dezembro, mostrou o relatório do governo mais cedo neste mês. A taxa de desemprego, que é calculada com o uso de outra pesquisa do governo, caiu para 9,7% em janeiro, de 10% no mês anterior.

 

Em depoimento hoje, economistas disseram ao comitê que o mercado de trabalho americano permanece tão fraco que tanto o Fed quando o Congresso precisarão estar prontos para prover um estímulo adicional.

 

"O Fed não deve subir as taxas de juros muito rapidamente e deve permanecer flexível a respeito do uso renovado de estímulo ao crédito mais tarde neste ano", disse Mark Zandi, economista na Moody's Analytics, que assessora congressistas democratas.

 

Ele disse que o Congresso deve também prover mais recursos - para trabalhadores desempregados cujos benefícios estão acabando, para pequenas empresas em busca de crédito e para todas as companhias que expandem as folhas de pagamento.

 

Embora Bernanke irá querer ressaltar que a economia ainda precisa de apoio do Fed, ele deverá apresentar os planos do banco central para quando a recuperação será forte o suficiente para permitir taxas mais altas sobre os empréstimos às empresas e aos consumidores.

 

Um primeiro passo em direção ao aperto monetário poderá envolver a drenagem, pelo Fed, do mais de US$ 1 trilhão que os bancos acumularam em depósitos compulsórios excedentes após o BC americano ter comprado ativos hipotecários e Treasuries do governo para combater a crise financeira. Isso poderá ser feito através de operações de mercado conhecidas como acordos de recompras reversas e depósitos a termo.

 

Bernanke disse no começo deste mês que a taxa de 0,25% que o Fed paga aos bancos sobre excesso de reservas poderá substituir por algum tempo as metas dos Fed funds, como a principal ferramenta para apertar o crédito.

 

No que poderá levar um grande tempo da sessão de perguntas e respostas, os membros do comitê deverão questionar muito o presidente do Fed sobre a crise financeira e as propostas para que a nova regulamentação financeira evite outra.

 

A Câmara aprovou um projeto de lei de regulamentação financeira em 11 de dezembro, que submeterá as decisões do Fed sobre taxas de juros a um escrutínio sem precedentes do Congresso. Enquanto isso, o Senado americano propõe retirar do Fed seus poderes de regulamentação sobre os bancos, após alguns senadores terem acusado Bernanke de ter falhado em ver a crise que estava chegando.

 

Em resposta às críticas, Bernanke poderá tomar a linha que adotou quando tomou posse para seu segundo mandato no começo deste mês: proteger a independência do BC americano contra interferência política é crucial para a economia - especialmente nessa difícil encruzilhada. As informações são da Dow Jones. (André Lachini)

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