Bernanke, o soprador de bolhas?

Não há motivo para acreditar que enfrentamos algum problema amplo de bolha; o presidente do Fed deve ignorar o 'bolhismo' e seguir em frente com o seu trabalho

Paul Krugman, The New York Times,

11 de maio de 2013 | 02h05

Bolhas podem ser ruins para a sua saúde financeira - e ruins para a saúde da economia também. A bolha das Pontocom no fim dos anos 1990 deixou atrás de si muitos prédios vazios e muitos mais sonhos arruinados. Quando a bolha imobiliária da década seguinte estourou, o resultado foi a maior crise econômica desde os anos 1930 - uma crise da qual ainda não saímos.

Assim, quando pessoas falam de bolhas, é preciso ouvir com atenção - e não desconsiderá-las desdenhosamente, que foi como muitos autoproclamados especialistas reagiram às advertências sobre a habitação.

E há muita conversa sobre bolha hoje em dia. Boa parte é sobre uma alegada bolha de bônus que supostamente está mantendo os preços dos bônus irrealisticamente altos e das taxas de juros - que se movem na direção oposta dos preços dos bônus - irrealisticamente baixas. Mas o índice Dow Jones em ascensão tem suscitado temores de uma bolha acionária também.

E então, teremos uma grande bolha de bônus e/ou de ações? Sobre os bônus, eu digo definitivamente que não. De ações, provavelmente não, embora não tenha certeza.

O que é uma bolha, aliás? Surpreendentemente, não há uma definição padrão. Mas eu a definiria como uma situação em que os preços dos ativos parecem se basear em visões implausíveis ou inconsistentes sobre o futuro.

Haverá algo comparável ao que está ocorrendo hoje no mercado de bônus? Bem, a taxa de juros dos bônus de longo prazo depende principalmente do caminho esperado das taxas de curto prazo, que são controladas pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Ninguém vai querer comprar bônus de 10 anos por menos de 2%, a taxa atual, se acreditar que o Fed estará elevando as taxas de curto prazo a 4% ou 5% no futuro não muito distante.

Mas por que, exatamente, a pessoa deveria acreditar nisso? O Fed normalmente corta taxas quando o desemprego está alto e a inflação está baixa - que é a situação atual. Na verdade, ele não pode cortar mais as taxas porque elas já estão perto de zero e não podem descer mais. Mas é difícil perceber por que o Fed deveria elevar taxas até o desemprego cair bastante e/ou a inflação subir, e não há indício de que algo do gênero vá ocorrer nos próximos anos.

Por que, então, a conversa sobre uma bolha de bônus? Isso reflete, em parte, a observação correta de que as taxas de juros estão muito baixas pelos padrões históricos. As regras usuais sobre o que constitui um nível razoável de taxas de juros não se aplicam.

Há também, é preciso que se diga, um elemento de desejo irracional. Por alguma razão, muitas pessoas do setor financeiro desenvolveram ódio profundo por Ben Bernanke, o presidente do Fed, e tudo que ele faz. Elas querem o fim de suas políticas de dinheiro fácil. Nas circunstâncias, porém, o desamor pelos barbados professores de Princeton não é uma boa base para uma estratégia de investimento.

E não convém esquecer o exemplo do Japão, onde as apostas contra bônus do governo - justificadas mais ou menos pelos mesmos argumentos feitos para justificar alegações de uma bolha americana de bônus - terminaram mal com tanta frequência que veio a ser conhecido como "widowmaker" (algo como "de alto risco"). A esta altura, a dívida do Japão está bem acima do dobro de seu Produto Interno Bruto, seu déficit orçamentário continua grande e a taxa de juro para os bônus de 10 anos é 0,6%.

OK, e as ações? Os principais índices do mercado acionário estão mais altos que no fim dos anos 1990, o que soa sinistro. Muito menos sinistro, porém, quando se sabe que os lucros corporativos estão mais que duas vezes e meia acima do que estavam quando a bolha dos anos 1990 estourou. Além disso, com os rendimentos dos bônus tão baixos, seria de se esperar que os investidores se deslocariam para ações, elevando ainda mais seus preços.

A verdade, porém, é que não há motivo para acreditar que enfrentamos algum problema amplo de bolha, exceto que se preocupar com bolhas hipotéticas toma precedência sobre a tarefa de recolocar os americanos no trabalho. Bernanke deve deixar de lado os barões balbuciantes do "bolhismo" e seguir em frente com o seu trabalho. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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