Bernanke segura firme

Ontem, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, fez um dos pronunciamentos mais esperados do ano, na cidade de Jackson Hole, Estado americano de Wyoming.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

O mundo econômico-financeiro estava ansioso por ouvir um anúncio de que viria aí nova rodada de estímulos heterodoxos (e não da redução dos juros, que não têm mais para onde cair) para reativar a economia, baseados na recompra de títulos, dentro do que passou a ser chamado de "afrouxamento monetário quantitativo".

Bernanke avisou que o Fed está pronto para novas intervenções não convencionais, se essa providência vier a ser imprescindível. Mas acrescentou que não vê necessidade disso agora, uma vez que não há sinais de deflação. Disse também que não há consenso dentro do Fed sobre o que exatamente fazer para estimular a economia.

Ou seja, Bernanke não satisfez inteiramente as expectativas do mercado, mas, também, não as decepcionou. E isso significa que, em caso de piora da situação econômica, novos estímulos poderão se tornar inevitáveis.

Antes de prosseguir, convém mencionar mais uma vez a razão por que uma operação dessas seria considerada fora dos manuais. É que todo banco central está lá para defender a moeda. Se imprimir mais dinheiro para recomprar títulos no mercado, tanto públicos como privados, em princípio estará semeando inflação. No momento, o grande medo é o de que aconteça o contrário, o de que o consumo e a atividade econômica afundem, os preços caiam por falta de demanda e a economia mergulhe na deflação. Se isso ocorresse, além da queda de receita do setor público, os salários seriam reduzidos e ficaria ainda mais difícil para o devedor pagar suas contas (porque as dívidas não seriam desvalorizadas).

Ao longo da crise, além de derrubar os juros para as cercanias do zero por cento, o Fed tomou duas providências que desafiaram o âmbito institucional do seu mandato, na medida em que se apegaram a um desses artigos escondidos na lei. Lá está dito que o banco central americano tem de fazer "o necessário" para garantir a saúde do dólar.

Assim, quebrou as regras convencionais e injetou US$ 1,7 trilhão no mercado por meio da compra de hipotecas e outros títulos que estavam sendo enjeitados. E, numa segunda rodada, recomprou outros US$ 300 bilhões em títulos do Tesouro dos Estados Unidos. O objetivo dessas operações foi manter baixos os juros de longo prazo.

Dia 10, avisou que, à medida que os títulos dessa nova carteira fossem vencendo e os recursos fossem devolvidos, o Fed os reaplicaria em títulos do Tesouro. No entanto, diante de insistentes sinais de aprofundamento do desemprego e da estagnação, o mercado está cobrando do Fed ainda mais ação fora dos padrões.

A questão de fundo parece a que foi mencionada de raspão por Bernanke quando disse que o Fed tem à sua disposição várias opções, mas, no momento, não tem clareza sobre qual delas seria a melhor. E, de fato, os juros de longo prazo já estão muito baixos e não é por falta de dinheiro que as finanças nacionais continuam prostradas.

Embora não tenha se comprometido a nada de novo, Bernanke conseguiu o mais importante: manteve intacta a confiança nele depositada, o que, nas crises, é algo que tem de ser sempre renovado.

O foco

Algo extraordinário acontece em tempos de crise, como esta em que o mundo continua metido. Quando tudo vai mal, quando o desemprego aumenta e quando a economia se mantém prostrada, não é nem para o todo-poderoso presidente dos Estados Unidos, nem para seu secretário do Tesouro (ministro das Finanças), nem para o Congresso americano que as atenções se voltam. Elas se voltam para o presidente do Fed (banco central), autoridade que está lá sem um único voto popular.

Complicado

É claro, o presidente dos Estados Unidos poderia arrancar do Congresso autorização para despejar trilhões de dólares no mercado. Mas isso é muito complicado e raramente os políticos estão dispostos a fazer o jogo do Executivo.

Esse é o cara

Nessas horas, quem toma conta da impressora do banco central é bem mais importante. E é do presidente do Fed que depende o futuro da maior economia do mundo.

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