Best ou Keegan?

Aos olhos dos investidores e dos responsáveis pelos processos de seleção, talento vale mais que determinação

The Economist

28 Dezembro 2015 | 03h00

A questão poderia ser chamada de “George Best versus Kevin Keegan”. Ambos foram considerados, em suas respectivas épocas, os melhores jogadores da Europa. Mas se o primeiro tinha um dom inato e falava com fluência a língua da bola, o segundo era menos talentoso e precisou cavar, com determinação implacável, um lugar ao sol no panteão do futebol. Qual dos dois seria a melhor contratação?

Escolher entre alguém que exibe habilidades inatas e alguém que trabalha com afinco não é um dilema restrito aos aficionados por games em que a pessoa desempenha o papel de treinador virtual. Os investidores e os responsáveis por processos de seleção nas empresas, às vezes, se deparam com a mesma escolha.

Em artigo a ser publicado em breve, a professora Chia-Jung Tsay, do University College London (UCL), examina se os investidores preferem apostar em empreendedores que são “pés de boi” ou naqueles que parecem ter “nascido para a coisa”. Tsay admite que na vida essas duas características não são tão estanques assim. Poucas pessoas – incluindo Best e Keegan – conseguem se dar bem sem ter pelo menos um pouquinho de cada uma delas. Mas, ao menos na percepção das pessoas, a balança frequentemente pende para um dos lados.

Num experimento, Chia-Jung apresentou uma lista de empreendedores fictícios a um conjunto de aspirantes a investidores. Na descrição desses arremedos de empresários eram incluídos atributos como experiência em posições de liderança, habilidades gerenciais e QI, além do montante de capital que cada um deles fora capaz de levantar. Numa variação do experimento, deixava-se subentendido que os empreendedores haviam avançado em suas carreiras graças, sobretudo, a habilidades naturais ou talentos. Em outra variação, afirmava-se explicitamente que o empreendedor era alguém que “tinha nascido para a coisa”, ou então, que era um “pé de boi”, embora os investidores não fossem informados de que essa era a questão que mais interessava à pesquisadora. Em seguida, Chia-Jung calculou até que ponto, em média, os investidores se mostravam dispostos a abrir mão deste ou daquele atributo, a fim de escolher alguém que tinha o empreendedorismo no sangue ou alguém que suava a camisa para empreender.

Os investidores se dividiam entre os que já haviam tido experiências reais com investimentos e os inexperientes. Ambos os grupos demonstraram clara preferência por talentos supostamente “inatos”. Para cair nas graças de um investidor experiente, por exemplo, um empreendedor “pé de boi” precisava ter, em média, 4,5 anos mais de experiência em posições de liderança, 9% mais de habilidades gerenciais, 28 pontos mais de QI e US$ 40 mil mais em captações do que alguém cujo empreendedorismo “corria nas veias”. O curioso é que, antes do experimento, a maioria dos participantes manifestara predisposição a escolher alguém com motivação e disposição para o trabalho pesado. Isso sugere que a preferência pelo talento inato é, em grande medida, inconsciente.

Perseguir objetivos com determinação é um “meme” cultural recorrente — basta pensar no sonho americano, por exemplo, ou na ética protestante do trabalho. Portanto, talvez não seja de espantar que as pessoas alardeiem isso como sendo o seu ideal. Quando se trata de realizar um investimento, porém, o experimento do UCL sugere que esses valores puritanos são deixados de lado.

O mesmo se aplica quando se trata de contratar funcionários. Em estudo de 2012, Michael Norton, da Harvard Business School, verifica que os responsáveis pela condução de processos de seleção demonstram “preferência por potencial”, isto é, preferem pessoas sem experiência, mas que, a seu ver, têm um futuro glorioso pela frente, a indivíduos com glórias passadas para exibir. Em vista disso, não parece ser recomendável que as pessoas que galgam posições com esforço e dedicação deem muita ênfase a suas conquistas, em prejuízo de outras qualidades. Segundo Chia-Jung, a preferência pelos “talentosos” talvez seja motivada pela crença de que esses indivíduos têm mais condições para se adaptar a um futuro incerto.

Se as pessoas de fato têm predisposição a optar por talentos inatos, correm o risco de sofrer algumas decepções. Deixemos a cargo de George Best a história edificante: se brilhou com intensidade nos gramados, a chama do jogador irlandês logo se apagou. As garrafas de champanhe e as garotas bonitas o distraíram. Como lamentou, anos depois, um Best depauperado: “Gastei muito dinheiro com bebidas, mulheres e carros velozes. O resto eu joguei pela janela mesmo”.

 

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