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Gilles Lapouge
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Best-seller da desigualdade

Austero como uma estatística, enriquecido por um título que parece prolongar a obra de Karl Marx: Capital in the Twenty-First Century (O Capital no Século 21). E o pior é que o autor, Thomas Piketty, é um francês. Ele pertence à tribo "gaulesa", lá, ao lado do Sena e da Torre Eiffel, que jamais compreendeu coisa alguma de economia. E nada faz para solucionar o problema. Não só ele é francês, como ainda é de esquerda. Pois é: escreve crônicas naquela espécie de jornal de esquerda chamado Libération.

Gilles Lapouge,

18 de maio de 2014 | 02h07

E este negócio, este objeto, este livro, um mês após estourar nos Estados Unidos, é um best-seller. Vende como Coca-Cola. O autor é apresentado pela imprensa americana como "o grande nome da economia".

Foi recebido na Casa Branca e no Departamento do Tesouro. Faz conferências monstros na companhia de dois Prêmios Nobel americanos, Paul Krugman e Joseph Stiglitz. Nas livrarias e no Amazon, está há um mês entre os mais vendidos.

Qual é o alvo de Piketty? O aumento da desigualdade. O que não é nenhum "furo". No mundo inteiro, mas principalmente nos Estados Unidos, o fosso entre os ricos e os pobres expandiu-se de maneira extraordinária. Entre 1993 e 2012, 1% dos americanos mais ricos viu sua renda crescer 86%, enquanto a dos outros 99% cresceu apenas 6,6%. A crise econômica, como todos sabem, acelerou esse processo. Hoje, 1% dos mais ricos é dono de 20% da riqueza americana.

Todo mundo sabe disso e todo mundo se indigna. Inclusive nos Estados Unidos, Obama fez sua campanha de 2012 baseado neste tema. Mas Piketty garante a essa constatação óbvia um embasamento científico firme como concreto armado, acompanhando o movimento no longo prazo, o que lhe permite esclarecer os seus mecanismos.

Ele demonstra que essa desigualdade da renda se alimenta de outra desigualdade, insidiosa e raramente considerada, a desigualdade dos patrimônios. Piketty toca portanto uma das vacas sagradas da economia liberal: a influência deletéria dos herdeiros, que detêm as fortunas e consequentemente controlam e pilotam a economia mundial.

Assim, como esse movimento de concentração das fortunas, considerando as rendas e as heranças, parece a Piketty fundamentalmente prejudicial, ele propõe que se busque o reequilíbrio, por meio do Imposto de Renda. Meu Deus!

Arthur Goldhammer, do Centro de Estudos Europeus de Harvard, escreve: "Piketty mostra que não se trata apenas de desigualdade das rendas, mas de desigualdade de patrimônios. Os herdeiros têm uma importância desmedida. E isso coloca em risco a ideia que nós americanos tínhamos do nosso próprio país".

Paul Krugman prevê que O Capital no Século 21 será um dos livros mais importantes da década. Bem entendido, no império do liberalismo Piketty também provoca alergias, mas a maioria dos veículos de comunicação, mesmo que o critique, admite sua importância.

E, afinal, Thomas Piketty, ex-aluno da École Normale Supérfieure, tem o toque coquete dos franceses: mesmo que seu livro seja duro, severo, científico, ele sabe abrilhantá-lo com referências literárias de alto nível: "Quando foi que nós lemos um livro de economia que cite Jane Austen ou Le Père Goriot, de Balzac?", indaga a New York Review of Books?

Em seu entusiasmo, outra revista, The New Republic, chega a comparar Piketty a um dos raros intelectuais franceses conhecidos pelos americanos, Bernard-Henry Lévy. Besteira: Bernard-Henry Lévy é um filósofo espalhafatoso e medíocre, um escritor de clichês, enquanto Thomas Piketty é um brilhante pensador.

Mais bem inspirada, a revista mensal American Prospect compara Piketty a outro ensaísta francês, verdadeiro gênio, Alexis de Tocqueville (século 19). É mais justo, talvez um pouco exagerado, mas Piketty é jovem, 43 anos. Veremos daqui a algumas décadas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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