Bevilaqua deixa diretoria do BC; mercados podem reagir

Os elogios do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à política monetária nesta quinta-feira sinalizaram que Henrique Meirelles está fortalecido na presidência do Banco Central, apesar das pressões que vem sofrendo. Talvez não por coicidência, neste mesmo dia, o BC troca um de seus diretores considerados mais conservdores. Sai o diretor de Política Econômica, Afonso Bevilaqua, e assume o diretor de Estudos Especiais, Mário Mesquita. Ele assume as duas diretorias por tempo indeterminado. De acordo com a nota do BC, "após quase quatro anos integrando diretoria do BC, Afonso Bevilaqua, pretende se dedicar a novos projetos profissionais".Meirelles encontrou-se com Lula há alguns dias e, depois disso, ficou claro que, para permanecer na presidência do BC, Meirelles teria de aceitar uma modificação na composição do Banco Central, com o afastamento dos diretores mais comprometidos com a ortodoxia, entre os quais Bevilaqua.Ao aceitar esse tipo de mudança, o sinal transmitido por Meirelles é o de perda de autonomia e o de tornar o Comitê de Política Monetária (Copom) mais sensível às pressões do governo, que pretende ter o apoio das autoridades monetárias para a implementação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).Mercado pode reagirSe houver uma perda de autonomia do BC, especialmente num momento em que se admite que o PAC poderá ter impacto negativo sobre as finanças públicas, o mercado reagirá rapidamente. O economista-chefe do Banco Schahin, Sílvio Campos Neto, afirmou que a decisão pode estressar o mercado na sexta-feira e aprofundar as incertezas pelas quais os investidores já passam recentemente.O economista-chefe do Banco Santander Banespa, André Lóes, também acredita que a saída de Bevilaqua, embora já fosse dada como certa, deve provocar um sentimento de perda no mercado financeiro. Para ele, até pela liturgia do cargo e pela vasta bagagem de conhecimento que o Bevilaqua tem, foi ele o responsável pelo tom do Banco Central.Em geral, de acordo com Lóes, os diretores de Política Econômica são mais forte que os demais, mesmo quando o presidente do BC é um homem de peso como era o Armínio Fraga. "Na gestão de Fraga, o Ilan Goldfajn era o homem forte do BC", diz Lóes. Para ele, o sentimento de perda em relação à saída de Bevilaqua está relacionada ao grau de confiança que o mercado depositava no ex-diretor. CopomA grande novidade, segundo Campos Neto, foi a saída de Bevilaqua justamente uma semana anterior à reunião do Copom. Ele disse que manterá, pelo menos por enquanto, sua expectativa de que o Copom continue a cortar a Selic em 0,25 ponto porcentual na próxima Quarta-feira - de 13% para 12,75% ao ano -, como já esperava anteriormente. "Se por um acaso voltasse um corte de 0,50 ponto porcentual agora daria a impressão de que há influência externa nas decisões", disse. Lóes lembra que "o voto do presidente (do BC) é muito importante na estrutura do Copom, mas o do diretor de Política Econômica pesa mais, já que ele é quem faz as exposições iniciais" das nas reuniões do colegiado. Os demais diretores, de acordo com ele, falam já influenciados pelo diretor de Política Econômica. "Por isso, agora a preocupação recai sobre quem será o indicado para assumir o cargo", diz o economista do Santander.De acordo com Lóes, o Bevilaqua desempenhou um trabalho esplendoroso frente à diretoria de Política Econômica, especialmente no controle da inflação porque tem um conhecimento profundo do arcabouço do regime de metas de inflação. Além disso, afirma o Lóes, o ex-diretor do BC ajudou a sistematizar de forma positiva as discussões em torno do tema. A equipe atual do BC, de acordo com Lóes, tornou as regras mais claras e evitou que as decisões da autoridade monetária fossem personificadas, o que reduziu a volatilidade no mercado a cada decisão do BC. EstudoÉ interessante notar que Bevilaqua, o diretor do BC mais visado, publicou em janeiro um estudo, em colaboração com Mário Mesquita, e André Minella, alto funcionário do BC. O texto, em inglês, tem o título Brasil, domando as expectativas inflacionárias, e traz uma análise das decisões do Copom desde 2003.É difícil não interpretar esse estudo de 30 páginas como uma defesa da política monetária ortodoxa seguida pelo Copom. Insiste sobre o fato de que ela visou a aproximar a expectativa do mercado das metas de inflação e teve, neste sentido, um grande êxito, que está criando terreno favorável para o crescimento econômico almejado pelo PAC. Entende-se que, se, de repente, essa expectativa piorar, caberia ao Copom reagir.

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