BH vira a capital do desemprego

Em dezembro, 21 mil foram demitidos segundo Caged; em termos relativos, corte é maior que em SP e Porto Alegre

Andrea Vialli, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

A região metropolitana de Belo Horizonte começou o ano de 2009 com um novo e amargo título: capital nacional do desemprego. A Grande BH foi a que mais perdeu empregos em dezembro - foram 21.059 vagas a menos no mês, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados na semana passada. É uma queda de 1,64% em relação a dezembro de 2007. Em termos absolutos, a Grande São Paulo perdeu mais postos de trabalho - 63.241 vagas - mas o impacto do desemprego na capital mineira é maior em termos proporcionais, ao se levar em conta o tamanho da população. Na Grande BH, 0,84% da população economicamente ativa (PEA) perdeu o emprego. Na Região Metropolitana de São Paulo, o desemprego foi de 0,64% e na Grande Porto Alegre, de 0,56% da PEA. "Belo Horizonte foi a capital que mais contratou ao longo de 2008 e também a que mais rapidamente sentiu os efeitos da crise internacional. Isso levou a um maior número de demissões em dezembro", afirma Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). A queda nas exportações e na demanda interna de setores como mineração, metalurgia e siderurgia - que juntos respondem por 40% do Produto Interno Bruto (PIB) da indústria de Minas Gerais - limou 88.062 vagas de trabalho em todo o Estado em dezembro. "O bom desempenho da economia mineira até outubro de 2008 era resultado da demanda aquecida por minério de ferro e aço. Agora, mineradoras e siderúrgicas são justamente as indústrias que mais demitem em Minas Gerais", diz Osmani Teixeira de Abreu, presidente do conselho de Relações do Trabalho da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Em novembro, o PIB da indústria mineira encolheu 25% em comparação com outubro, segundo o último balanço divulgado pela Fiemg. Nos próximos dias saem os números de dezembro. "Serão piores", diz Abreu.Com a fartura de crédito até setembro, a indústria automobilística (13% do PIB da indústria) também vinha contribuindo para o aquecimento da economia de Minas Gerais. Agora, para evitar que o nível de emprego caia ainda mais na região de Betim, município da Grande BH que abriga a Fiat e grande parte de seus fornecedores de autopeças, o sindicato dos metalúrgicos já aceitou discutir a flexibilização de contratos de trabalho com 14 empresas. INCERTEZAO mecânico-borracheiro Márcio Antônio Quintão, de 40 anos, recebeu uma péssima notícia no dia 31 de dezembro. Após nove meses de trabalho, ele foi dispensado pela empresa Bailac, uma prestadora de serviços da Vale em Itabira, a 104 quilômetros de Belo Horizonte. Quintão recebia um salário de R$ 927. Agora, o orçamento da família de quatro pessoas se resume ao salário mínimo que a esposa, Valdete de Morais, de 38 anos, recebe como empregada doméstica. "Eu aceitaria até a redução do salário. O que não posso é ficar sem emprego, isso acaba com a gente."A suspensão e cancelamento de contratos da mineradora com empreiteiras prestadoras de serviço já levaram à demissão de 1.560 funcionários terceirizados somente em Itabira, segundo o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Extração do Ferro e Metais Básicos (Metabase) do município e região. Apenas uma empreiteira, a Sales Gama, demitiu 600 trabalhadores. Além de Quintão, outros 53 empregados foram dispensados pela Bailac após o estouro da crise internacional. De acordo com o economista Hélio Zylberstajn, pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), as empresas que vinham em ritmo acelerado até o terceiro trimestre de 2008 agora terão de se adaptar aos novos tempos, o que significa perda de postos de trabalho. "Essas companhias estavam ajustadas para o crescimento crescente de 2008. Em 2009 isso não vai acontecer."

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