BID critica bancos da AL e diz que remessas são muito caras

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) deu um duro "puxão de orelha" nos governos dos países da América Latina e do Caribe e nas instituições financeiras da região por não estarem "facilitando" o fluxo de bilhões de dólares que os latino-americanos que trabalham no Exterior enviam para seus países. "Agora que percebemos que existem US$ 38 bilhões, não submetamos mais esse dinheiro à dupla tributação. É injusto é improdutivo", disse Donald Terry, chefe do Fundo de Investimentos Multilaterais do BID, ao se referir ao grande volume de remessas verificado no ano passado. Esses recursos superaram, em muito, os investimentos estrangeiros diretos (IED) na América Latina. Embora tenha caído de 15% para 8%, o custo das remessas ainda é considerado excessivamente alto pelo BID. "Este tema (o das remessas) precisa ser tratado como prioridade por aqueles que formulam políticas públicas, já que os custos do envio de dinheiro ainda são muito altos, principalmente se levarmos em conta que vivemos na era das transações eletrônicas", disse Terry, durante uma mesa redonda neste sábado sobre remessas de imigrantes latino-americanos. O evento precedeu a abertura da Assembléia Anual do BID, marcada para segunda-feira. Terry fez ainda mais um alerta, e também em tom de puxão de orelha, às instituições financeiras. Ele disse que as remessas dos trabalhadores latino americanos são fluxos financeiros que buscam produtos financeiros. No entanto, criticou, esse mercado que está sendo dominado por companhias de transferência de dinheiro. "O sistema financeiro não está chegando à população porque, aparentemente, não está interessado nesse negócio. Mas saibam que a população também pode não estar interessada nos bancos e ainda está contra eles", lembrou o funcionário do BID, para uma platéia de mais de 200 participantes, entre eles muitos banqueiros. Terry explicou que essas remessas são transações privadas, entre famílias, que, certamente, têm impacto público. Mas, lamentou que os governos ainda não fizeram absolutamente nada para liberar esse fluxo de recursos. "Lembrem que essas remessas podem multiplicar o impacto do desenvolvimento. Não é dinheiro do BID e ne mdos bancos privados. É das famílias, e, por isso, precisam dar opções para o uso dele", disse. Os números apresentados por Terry, de fato, impressionam. Ele disse que, atualmente, existem 25 milhões de famílias que moram fora da América Latina e o Caribe, dos quais mais de 75% enviam dinheiro para seus países, transformando a região da América Latina no maior mercado desse tipo de operação financeira do mundo. Embora não existam dados precisos, o BID acredita que, no âmbito mundial, existam pelo menos 100 milhões de famílias que vivem no Exterior, enviando aproximadamente US$ 150 bilhões. Isso significa, acrescentou ele, que existem cerca de 400 milhões a 500 milhões de pessoas envolvidas em alguma transação desse tipo. "Trata-se de uma de cada 10 pessoas no mundo todo." Daí, finalizou Terry, seria importante que, nos próximos cinco anos, o custo dessas transações caísse pelo menos 50%, permitindo uma maior concorrência. Disse ainda que seria importante aumentar em 50% o número de famílias que recebem dinheiro de fora por meio de instituições financeiras. "Dos US$ 38 bilhões registrados em 2003, apenas 5% terminaram na poupança em algum banco, e isso não é suficiente", alertou. Terry fez uma série de recomendações, não só às companhias especializadas em remessas, mas também aos organismos públicos, às instituições financeiras e à sociedade civil. Pediu, principalmente, transparência, concorrência e custos justos e democracia financeira. "Esses são os desafios."

Agencia Estado,

27 Março 2004 | 19h00

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