BID financia empresas que atendem a base da pirâmide

Banco tem US$ 100 milhões para aplicar em negócios voltados para as classes C, D e E na [br]América Latina

Naiana Oscar, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2011 | 00h00

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) quer incentivar empresas brasileiras a desenvolverem projetos de impacto social na chamada "base da pirâmide".

A instituição tem um orçamento de US$ 100 milhões de reais para conceder crédito a empresas que têm entre seus clientes o público das classes C, D e E. "Não é filantropia nem responsabilidade social", diz Luiz Ros, gerente do projeto batizado de "Oportunidades para a Maioria".

A ideia, segundo ele, é que o setor privado se torne sócio do setor público com o objetivo de melhorar a qualidade de vida da população de baixa renda, sem que o empresário tenha que fazer "caridade" e com garantia de retorno financeiro. A escolha dos projetos leva em conta aumento de produtividade, criação de empregos e formalização da população das faixas de mais baixa renda, além de considerar também os resultados da empresa que desenvolveu o projeto.

O primeiro caso brasileiro selecionado pelo BID ajuda a decifrar os objetivos do programa. A rede atacadista Tenda, com 15 lojas no Estado de São Paulo e faturamento anual de R$ 1,2 bilhão, acabou de firmar um contrato com o banco para receber crédito de US$ 10 milhões. Com um modelo de negócio de "atacarejo" (um atacadão que vende também em quantidades menores), o Tenda atrai justamente a população que o BID quer beneficiar. O crédito não é voltado para os consumidores finais atendidos nas unidades da rede mas sim aos chamados "nano empreendedores" - como pipoqueiros, dogueiros, donos de pequenas mercearias de periferia.

O recurso do BID será usado para conceder crédito, a baixo custo, a esses microempresários. "Depois de fazer um cadastro, o empreendedor passa a ter um limite de crédito para gastar na loja", explica Marco Gorini, gerente do Tenda responsável pela iniciativa. "Do nosso lado, existem várias vantagens: além de conhecer melhor o cliente temos a oportunidade de fidelizá-lo", diz o gerente. "É uma forma de fomentar o crescimento sadio de um cliente estratégico."

Em dois anos, 50 mil "nano empreendedores" devem ser beneficiados. A parceria com o BID também rendeu ao "atacarejo" uma aproximação com o governo da Coreia do Sul, que por meio de seu fundo de combate à pobreza doou US$ 270 mil dólares para que a rede paulista invista na formação e capacitação de seus clientes empreendedores.

Até o fim do ano, serão oferecidos cursos de gestão financeira, fluxo de caixa, planejamento e práticas de higiene nas unidades da rede.

Crédito. O segundo projeto a ser financiado pelo banco é de Recife. O dinheiro será aplicado pelo Banco Gerador na concessão de crédito para pequenos varejistas do interior do Nordeste. São mais US$ 10 milhões.

A escolha dessas duas empresas no Brasil abre as portas para o financiamento de outras empresas com o mesmo perfil. O BID concede empréstimos desse tipo para empresas da América Latina desde 2007, quando o banco destinou US$ 250 milhões ao programa. Já foram investidos US$ 150 milhões em 23 projetos - antes da Tenda e do Banco Gerador, nenhum deles tinha sido no Brasil.

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