Ryan Pfluger/The New York Times
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Biden não vai muito longe com plano de alívio de US$ 900 bilhões

Apesar da nova ajuda à pandemia, EUA enfrentam crise diferente de qualquer outra desde que Biden entrou para o governo, em 2009 - e os ventos políticos contrários apenas aumentaram

Patricia Cohen, The New York Times

06 de janeiro de 2021 | 05h00

Faltando apenas algumas semanas para sua posse, Joe Biden está enfrentando uma crise econômica que é totalmente incomparável e, ainda assim, estranhamente familiar. Milhões de americanos estão sem trabalho, os pequenos negócios estão lutando para sobreviver, a fome é galopante e pessoas de todo o país temem ser expulsas de suas casas. 

O momento era igualmente perigoso há exatamente 12 anos, quando Biden era o vice-presidente eleito e se preparava para assumir o cargo. “Eu me lembro do terror absoluto”, disse Cecilia Rouse, que era consultora econômica na Casa Branca de Obama e foi escolhida para liderar o Conselho de Conselheiros Econômicos de Biden.

O plano de alívio à pandemia de US $ 900 bilhões que parlamentares moderados aprovaram no Congresso no mês passado dá ao novo governo algum espaço para respirar. Essa segunda rodada de ajuda vai entregar cheques de estímulo, ajudar pequenas empresas e estender os benefícios federais de seguro-desemprego até meados de março. Mas, como Biden deixou claro, é simplesmente um “pagamento inicial” – uma breve ponte para atravessar o inverno sombrio, não o suficiente para restaurar a saúde da economia.

Aproximadamente 19 milhões de pessoas estão recebendo algum tipo de seguro-desemprego, e muitos donos de negócios se perguntam se conseguirão sobreviver ao ano. A crise do coronavírus piorou as antigas desigualdades sociais, com os trabalhadores da extremidade inferior do espectro de renda – que são desproporcionalmente negros e hispânicos – arcando com o peso do sofrimento.

Ao mesmo tempo, gargalos na aplicação das vacinas contra a covid-19, bem como temores sobre uma variante muito mais transmissível do vírus, podem atrasar ainda mais o renascimento de grandes setores da economia, como restaurantes, viagens, entretenimento ao vivo e esportes. 

No entanto, apesar da terra arrasada deixada pelo coronavírus, a economia agora está sobre uma base mais estável do que esteve no início de 2009.

Em vez de cair no buraco sem uma visão nítida do fundo, Biden está assumindo o cargo quando a economia se encontra em trajetória de alta. Por mais anêmico que seja o crescimento, a maioria dos analistas prevê que 2021 terminará melhor do que começou, mesmo que haja tropeços ao longo do caminho.

Embora essa recessão provocada pela pandemia tenha sido maior em termos de perdas e fechamentos de empregos, trata-se daquilo que Cecilia caracterizou como “danos colaterais” de uma emergência de saúde, não uma rachadura no sistema financeiro global. “Agora sabemos o que fazer: fornecer o tipo de rede de segurança social para famílias, empresas e comunidades que lhes permita chegar sãs e salvas ao outro lado da pandemia.”

O governo Biden também se concentrará em atacar as profundas desigualdades que esta crise agravou, acrescentou ela.

Mas, mesmo que o governo Biden tenha um pouco mais de margem de manobra na economia, é provável que na política tenha muito menos do que Obama teve nos primeiros dois anos de presidência, quando seu partido controlava as duas Casas do Congresso.

Se os democratas retomarem o controle do Senado, ganhando ambas as cadeiras no segundo turno da Geórgia, o caminho de Biden será muito mais fácil. Caso contrário, o novo presidente terá de lidar com um Senado republicano liderado por Mitch McConnell, do Kentucky, que vem barrando os projetos da Câmara, controlada pelos democratas.

Nesse caso, o governo terá um trabalho árduo para convencer os parlamentares a aprovar mais ajuda quando essa rodada terminar. Com um democrata a caminho do Salão Oval, muitos republicanos que haviam deixado de lado suas preocupações com a dívida quando se tratou de cortar impostos em 2017 redescobriram o déficit interno.

Resistência

McConnell resistiu com sucesso aos apelos do presidente Trump – ecoados pelos democratas – para aumentar os últimos pagamentos de estímulo de US $ 600 para US $ 2 mil. O fracasso em estender ou expandir a ajuda federal quando ela expirar neste semestre não só causaria dificuldades significativas e sofrimento desnecessário, mas poderia prejudicar seriamente a economia, disse Joseph Stiglitz, economista ganhador do Prêmio Nobel.

Embora a atividade econômica provavelmente entre em trajetória de alta, a economia continuará enfraquecida, disse Stiglitz. Moratórias de despejo e tolerância de hipotecas impediram que as famílias perdessem suas casas, mas a dívida habitacional vem se acumulando, embora ainda não tenha aparecido nos orçamentos familiares.

Muitas pequenas empresas – especialmente no combalido setor de serviços, que tem sido uma fonte de empregos de baixa remuneração – não conseguirão sobreviver. A desigualdade econômica aumentará. “Ocorreram muitos danos de longo prazo”, disse Stiglitz.

Ao mesmo tempo, as fileiras de trabalhadores desempregados há seis meses ou mais cresceram para mais de 4 milhões, aumentando as chances de nunca encontrarem outro emprego. Um número crescente de homens e mulheres está abandonando a força de trabalho.

Nenhum desses problemas será realmente enfrentado sem a ampla distribuição das vacinas e a reabertura das escolas, para que os pais, sobretudo as mães, possam retornar ao mercado de trabalho. É por isso que os economistas dizem que é tão crucial canalizar ajuda direta para governos estaduais e locais.

Os republicanos do Senado foram totalmente contra o fornecimento desse tipo de ajuda direta. Muitos economistas liberais, porém, incluindo aqueles da equipe de Biden, alertam contra ignorar uma lição crucial da última recessão: não agir rapidamente para fornecer dinheiro suficiente para as pessoas e empresas que precisam pode prejudicar a economia no futuro.

Brian Deese, que Biden escolheu para liderar o Conselho Econômico Nacional, onde trabalhou como assistente no governo Obama, disse que é necessário fazer investimentos públicos para garantir o crescimento. “Estamos em um momento em que o risco de fazer muito pouco supera o risco de fazer muito”, disse ele./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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