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Bilionário indiano impulsiona crescimento do país

De origem simples e fiel às raízes indianas, Mukesh D. Ambani comanda um império industrial

Anand Giridharadas - do The New York Times,

14 de junho de 2008 | 14h34

Em uma recente partida de cricket, esporte jogado com tacos e muito popular no Oriente, Mukesh D. Ambani sentava em sua baia particular quietamente e acompanhava o Mumbai Indians, time que pertence a ele. O homem parecia esquecido, de certa forma, por aqueles à sua volta: seu filho torcia fervorosamente, sua esposa reluzia com diamantes. Não eram poucas as pessoas que esperavam ansiosamente para falar com ele na primeira oportunidade. Garçons em fraques frouxos se revezavam tentando servi-lo com aperitivos, mas assim que se aproximavam, ficavam muito nervosos para falar.  No último século, Mohandas K. Gandhi era o homem civil mais famoso e poderoso da Índia. Hoje, Ambanii é amplamente lembrado como o homem que ocupa este posto, ainda que de uma forma muito diferente. Assim como Gandhi, Ambani pertence a uma casta de mercadores conhecida como modh banias, é vegetariano, não consome bebidas alcoólicas e é um pensador revolucionário com idéias fixas sobre o que a Índia deve se tornar no futuro.   Gandhi era um asceta, um campeão do campo, cético da modernidade e um homem focado em pureza espiritual. Ambani é de uma oligarquia ostentativa, um campeão da cidade, um coveiro do passado e um homem que espertamente encara o poder financeiro. Ele é a pessoa mais rica da Índia, com uma fortuna estiamada em dezenas de bilhões de dólares, e muitas pessoas aqui acreditam que ele será o homem mais rico da Terra em breve.     Ainda que ele não tenha a língua afiada de um político - ele pode se mostrar um orador público nervoso, e sua dicção pode ser recortada -, ele fala mais como um pai da nação que um executivo. Ao descrever seus objetivos, ele diz que eles são para o bem da Índia da mesma forma que são para a sua própria companhia, a Reliance Industries.    "Nós podemos banir a pobreza extrema nesse país?", ele disse em uma rara entrevista em sua sede de Mumbai. "Sim, em 10, 15 anos nós podemos dizer que temos feito isso substancialmente. Podemos ter certeza que criamos uma estrutura social nos locais onde removemos a intocabilidade? Nós estamos nos encaminhando para uma nova Índia onde você não pensa sobre essa ou aquela casta."     A Reliance industry está injetando bilhões de dólares em exploração de energia e está construindo a maior refinaria de petróleo do mundo. O grupo também abriu uma rede de cerca de 700 lojas de suplementos alimentícios e utensílios; Ambani promete que irá direcionar dinheiro das cidades prósperas para a zona rural problemática. Ele considera a Reliance, com lucro de US$39 bilhões, como uma fonte de renda para 12 a 30 milhões de indianos nos próximos cinco anos, ao comprar de fazendeiros e empregar jovens empregados em suas lojas.   E como Mumbai, cidade natal de Ambani e centro comercial e de entretenimento da Índia, cresce populosamente ao mesmo ritmo que se torna uma cidade difícil de se habitar, ele propôs que a Reliance simplesmente construísse uma nova cidade do outro lado do porto. Ambani, de 51 anos, batalhou com seu irmão mais novo depois da morte de seu pai há seis anos e tomou controle de quase a metade da empresa dividida. Ainda que ele entre em novas áreas, ele manteve a dominação da sua família no ramo de negócios petroquímicos, de óleo e gás e manufaturados têxteis.  Ele mantém um perfil pessoal discreto, e atém mesmo as pessoas mais próximas o descrevem como uma pessoa fria. Por um lado, é visto como o homem que tem todo o seu coração entregue à Índia. Ele é motivado pela "habilidade de mudar a cara do país", disse K.V. Kamath, diretor-executivo do ICICI Bank, um financiador antigo e amigo dos Ambanis. Por outro, Ambani também é conhecido como alguém que deixa pouca gente permanecer no seu caminho (ou o caminho da Reliance).  Emblemático de sua ascensão é torre de um conjunto residencial que ele está construindo em uma das ruas mais sofisticadas de Mumbai,a Altmount. Com centenas de metros de altura, o complexo oferecerá vários andares de estacionamento, um ginásio multifuncional, uma salão para bailes, um teatro, espaços de convivência amplos e também para hóspedes, e um heliporto no topo (o preço do projeto é estimado em US$ 2 bilhões, ainda que um representante da Reliance diz que não passa de US$ 70 milhões). Por gerações, a Altamouns era o endereço favorito da elite indiana anglicanizada.    Nova elite indiana Com o passar do tempo, as elites estavam estacionadas na cultura britânica, falava com sotaque de Oxbridge, ridicularizavam filmes de Bollywood e dançavam apenas com música britânica e americana. Eles menosprezavam aquelas pessoas que falavam línguas locais e os descreviam como "vernies", abreviação em inglês para "vernaculares". Depois, nos anos 90, Bombaim mudou seu nome oficial para Mumbai, e a rua Altamount foi renomeada S. K. Barodawalla Marg. O nome não pegou, mas a mudança fazia parte do movimento indiano para se desvincular do seu legado colonial.  Tais mudanças acompanharam a ascensão ao poder de uma nova classe de indianos, que querem viver e trabalhar para criar os seus filhos na Índia, que estão ligados à comida e a cultura indiana e que não se envergonham de seus gostos indianos. Os Ambanis são os primeiros dessa nova classe. Muitas outras famílias indianas têm riqueza antiga, mas Ambani se comporta diferentemente dos ricos tradicionais do país. Entre membros da família, ele prefere falar Gujarati ao inglês, dizem amigos. Ele pode pode pedir a colegas que parem em um templo com ele durante viagens de negócio. Ele prefere camisas de manga curta aos ternos ocidentais.  Sua idéia de entretenimento não é ballet, mas Bollywood; ele assiste por volta de três filmes por semana em seu cinema privado de casa. "De vez em quando é preciso dar uma escapada na vida", ele diz. "Essas duas ou três horas te dão alívio." Seu apetite é famoso, mas saciado basicamente por comidas encontradas pelas ruas de Mumbai.   Suas preferências refletem uma transformação cultural ampla na Índia, dizem admiradores. "Se você olha para os gostos dele, perecebe que são bem enraizados na Índia", diz Nandan M. Nilekani, co-diretora da Infosys Tecnologias, companhia de suprimentos da Índia. "Ele não está tentando impressionar ninguém. É parte de um aumento em larga escala da confiança própria do indiano, dado que as pessoas não encaram mais símbolos ocidentais como os melhores".      Riqueza jovem A origem da riqueza dos Ambani é relativamente recente - o pai dele abriu a primeira loja da Reliance em 1958. A companhia começou em um pequeno e reformado escritório de Mumbai. No início, exportava temperos para o Yemen, depois entrou no ramo de lá, em uma época que o governo restringia a produção em larga escala de indústrias manufatureiras. Ambani e seu irmão mais novo cresceram em um apartamento pequeno e apertado do subúrbio de Mumbai. A empresa prosperou e no final dos anos 60 a família já morava em um dos melhores bairros da cidade. O seu pai contratou tutor somente para acompanhar os filhos em saídas pelas ruas da cidade, para mostrar a realidade do país e evitar que eles crescessem mimados demais. "Foi um das melhores coisas que aconteceu na minha vida", disse Ambani sobre essas visitas de campo. "Essa é a cara da vida, nós pensávamos".     Ao longo do tempo, a  Reliance se transformou de um negócio familiar pequeno em um império público de comércio, adotando novos formatos de governança corporativa, publicando relatórios anuais chamativos e conquistando acionistas por todo o país. Na época da morte do Ambani-pai, em 2002, ele se tornou uma lenda, levando às ruas de Mumbai milhares de indianos. Dois anos depois, seus dois filhos começaram a brigar pelo controle da Reliance. A mãe da família entrou na disputa em 2005, dando ao irmão mais novo o controle de setores da Reliance ligados a telecomunicações, eletricidade e bancos. Cada uma das áreas da empresa hoje atuam separadamente. Hoje, or irmãos são chefes-executivos respeitados, mas amigos da família dizem que eles raramente se falam. Nenhum dos dois fala publicamente sobre como é o relacionamento entre eles.    Ao relacionar todos os problemas da Índia, Ambani oferece uma proposta de solução da Reliance para cada um deles. Para suprir com petróleo e gás o fôlego da classe média indiana, ele está construindo um complexo petroquímico em Jamnagar, no estado de Gujarat. O preço do investimento é de US$ 6 bilhões e produzirá 660 mil barris por dia. É uma das refinarias mais lucrativas do mundo, e Ambani planeja duplicar sua capacidade.     Dois terços da Índia (com população de 1,1 bilhão de habitantes) ainda vive da agricultura, e ele também pretende fomentar a revolução agrária. Ele começou a construir uma rede de supermercados por todo o país, que pretende ter contato direto com a produção de agricultores locais. Em alguns locais, os supermercados da Reliance fizeram com que fazendeiros se motivassem a produzir mais.  Alguns executivos dizem que Ambani já estabeleceu a si mesmo como o grande transformador da Índia, com um legado muito parecido com o de industrialistas americanos no século 19. "Quando falamos de Rockefeller e Carnegie, cada um deles de fato transformou um setor industrial", diz Nillekani, o co-diretor da Infosys. "Mas se olha para o Ambani está fazendo, ele está de fato mudando três ou quatro setores". Dado tanto poder, por que não entrar na arena política? "Acho que posso fazer muito, muito mais com meus negócios pessoais", responde Ambani.  

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