PEDRO IVO PRATES/ESTADÃO
PEDRO IVO PRATES/ESTADÃO

'Bioeconomia precisa se industrializar’, diz cientista

Para especialista em aquecimento global, sem empregos industriais extrativismo da Amazônia é limitado

Entrevista com

Carlos Nobre, cientista

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2020 | 05h02

Referência em estudos sobre o aquecimento global no Brasil, o cientista Carlos Nobre, hoje ligado ao Instituto de Estudos Avançados da USP, de uns anos para cá começou a iniciar suas apresentações afirmando que na maior parte de sua carreira ele “foi portador de más notícias sobre a Amazônia”. É dele o primeiro estudo que mostrou os riscos de a floresta tropical passar por um processo de savanização em decorrência do aquecimento global e do desmatamento. 

“Já fiz muitos alertas, mas não estava resolvendo. Comecei, então, a procurar soluções”, diz. Nobre é o idealizador de um projeto chamado Amazônia 4.0, em que ele lança mão de conceitos da chamada Quarta Revolução Industrial para propor saídas para desenvolver economicamente a região e, ao mesmo tempo, proteger a floresta. 

Para ele, a bioeconomia, quando se refere à Amazônia, é um conceito que prevê a promoção de sistemas de produção baseados no uso e na conservação de recursos biológicos da floresta em pé. Em entrevista ao Estadão, ele explica como a industrialização pode ajudar nisso. Leia a seguir:

Sua ideia de bioeconomia na Amazônia não é só explorar os recursos naturais, mas levar a industrialização para lá?

A indústria 4.0 no mundo moderno tem, logicamente, um caminho que é o da bioindústria fazendo um produto que chega ao consumidor. Mas esse não é o maior mercado possível, mas sim o chamado ‘business to business’, em que os produtos de uma indústria fluem para outra empresa normalmente maior, mais próxima dos centros consumidores ou centros exportadores, que faz o produto final. Esse potencial tem de ser desenvolvido, porque ele é bem grande.

Como isso pode ser feito?

Estamos desenvolvendo um conceito de Laboratórios Criativos da Amazônia para capacitar população, universidades, estudantes universitários, para criar novas biofábricas. Um dos que desenhamos agora, e estou atrás de recursos para construir, é para desenvolver óleos comestíveis de alta qualidade com produtos da floresta. Lógico que se pode fazer um óleo, colocar uma marca e vender no mercado, mas o maior potencial desse tipo de industrialização é processar o produto da floresta, fazer o óleo e depois ele entrar na cadeia de produção de uma empresa grande, que vai usar aquele óleo em seus produtos. É a bioindustrialização. 

Por essa proposta, a bioeconomia não se atém apenas a incentivos ao extrativismo, então?

A ideia é que não seja só para comunidades pequenas, não, mas um modelo para a Amazônia: para as comunidades, para as cidades e também para as cidades grandes. E que seja descentralizado. Tem coisas produzidas em comunidades, em pequenas cidades, mas também em cidades como Manaus e Belém, em várias escalas diferentes. A Tatiana Schor, secretária de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas, está liderando um esforço para criar o que está sendo chamado Zona Franca Verde, que vai exatamente nessa linha. É uma industrialização dos recursos da floresta em pé. Usamos essa definição de bioeconomia exatamente para contrapor a uma ideia mais antiga que tem como foco a expansão da área cultivável da agricultura.

Desde que começou a defender o projeto de bioeconomia na Amazônia, o sr. cita como exemplo o que ocorreu com o açaí. Qual é o pulo do gato?

O açaí hoje já traz mais de US$ 1 bilhão por ano para a economia da Amazônia. São produzidas mais de 250 mil toneladas de polpa de açaí, beneficiando mais de 300 mil pessoas, principalmente no Pará. Já é um fator econômico do tamanho da exploração da madeira, sendo que 80% da madeira é ilegal hoje. O açaí é legal. E beneficia muito mais gente. A madeira, que é em boa parte roubada, beneficia talvez 10 mil, 15 mil madeireiros, quase todos ilegais. Mas a industrialização do açaí na Amazônia é mínima. Hoje se pega o fruto, tira a polpa, liofiliza e exporta. E isso já melhorou muito a vida das pessoas. A ideia é começar a desenvolver uma indústria de processamento do açaí e fazer produtos que atendam a outras indústrias. Isso gera empregos industriais e uma economia mais local muito mais vibrante. Sem empregos industriais, a economia extrativista acaba ficando mais limitada e gera menos bem-estar social.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.