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Bismarck versus Bismarck

A Alemanha precisa aceitar que a alternativa a uma união monetária unificada é a hegemonia econômica do país

YANNOS, PAPANTONIOU, PROJECT SYNDICATE, EX- MINISTRO GREGO DE ECONOMIA, FINANÇAS, YANNOS, PAPANTONIOU, PROJECT SYNDICATE, EX- MINISTRO GREGO DE ECONOMIA, FINANÇAS, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2013 | 02h10

A centralidade da Alemanha para a Europa e, mais amplamente, para os assuntos mundiais tem sido fartamente, e amiúde sangrentamente demonstrada ao longo de muitos séculos. Na verdade, a posição estratégica da Alemanha no coração da Europa, além de seu enorme potencial econômico e militar, fez dela, de início um prêmio a ser buscado e, depois, com o desfecho da unificação alemã promovida por Otto von Bismarck em 1871, um Estado-nação a ser temido. O legado de Bismarck foi uma Alemanha que dominou a política europeia até o fim da 2.ª Guerra.

Esse legado está se reafirmando. Após o interlúdio da Guerra Fria, durante o qual a Alemanha serviu como pomo da discórdia entre Oriente e Ocidente, a reunificação permitiu a reafirmação do poder alemão dentro do contexto da União Europeia e, mais notavelmente, da zona do euro.

Hoje, porém, a questão é se a Alemanha está pronta e disposta a fornecer liderança na condução dos assuntos da União Europeia - e, neste caso, com que fim.

A Europa enfrenta hoje sua crise mais profunda do pós-guerra. Após seis trimestres de recessão, a retração econômica está se espalhando para os países centrais da zona do euro. O desemprego, acima de 12% em média, alcançou uma cifra recorde. Na Espanha e na Grécia, mais de 25% da força de trabalho estão desempregados, enquanto a taxa de desemprego paira em torno de 60% entre os jovens. Apesar da austeridade cruel, persistem os grandes déficits fiscais, e os bancos continuam descapitalizados e incapazes de sustentar uma recuperação econômica sustentada.

A inquietação social está se aprofundando na medida em que as expectativas - e as perspectivas reais - de uma melhora econômica provavelmente permanecerão fracas no futuro previsível. A fé no projeto europeu está caindo e, dada a falta de coesão da zona do euro, estagnação e recessão poderão levar a uma rejeição popular da UE, acompanhada por sérios desafios à democracia, incluindo a ascensão de partidos neofascistas.

E, no entanto, apesar de todos os riscos, os líderes europeus continuam inertes, aparentemente aplacados pela promessa do presidente do Banco Central Europeu Mario Draghi de fazer "o que for preciso" para proteger a união monetária do colapso. Mas a inércia prolongada induzida pela relativa calma nos mercados financeiros perpetuará a estagnação e acabará levando a uma ruptura de um tipo ou de outro. Ou o desgate gradual, com países mais fracos dando calote, conduzirá a um clube mais restrito de países "virtuosos" liderado pelos alemães, ou a própria Alemanha optará por seguir uma política de vantagem fiscal estreita separando-se da zona do euro.

A fraqueza política e econômica de França e Itália, com a gradual retirada da Grã-Bretanha dos assuntos da UE, salienta o papel-chave da Alemanha no resgate da zona do euro da crise atual. Mas uma verdadeira liderança requer um senso de direção e uma disposição de arcar com os custos, e, disso, a Alemanha ultimamente tem se mostrado em falta.

A despeito das habilidades políticas e da forte posição doméstica da chanceler alemã, Angela Merkel, falta a seu governo um projeto concreto de "uma União ainda mais estreita" na Europa. Por conseguinte, ela também está numa posição fraca para mobilizar os recursos e competências requeridos para recuperar a Europa. Em vez disso, a Alemanha de Merkel vem fazendo o mínimo possível, o mais tarde possível, para impedir o colapso da zona do euro.

Essa política não pode durar. Ou a estagnação causará uma ruptura da zona do euro, ou as circunstâncias obrigarão a uma mudança de política.

A Alemanha precisa aceitar que a alternativa a uma união monetária democraticamente unificada é a hegemonia econômica alemã. No longo prazo, esse desfecho destruiria o projeto europeu comum e, por sua vez, solaparia a própria prosperidade econômica e segurança estratégica da Alemanha - um cenário bismarckiano do qual Bismarck teria recuado horrorizado. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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