Marcelo Camargo/Agência Brasil
Marcelo Camargo/Agência Brasil

‘Bloco continua sendo zona de livre-comércio imperfeita’

Para ministro, há muitos entraves, mas Mercosul retomou sua dimensão econômica e comercial

Entrevista com

Aloysio Nunes, ministro das Relações Exteriores

Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2017 | 21h00

BRASÍLIA - O principal objetivo comercial do Mercosul este ano, o pré-acordo com a União Europeia, ficou para 2018. Mas o bloco tem abertas sete frentes de negociação de acordos, dos quais os mais novos são Coreia do Sul e Cingapura. A retomada da dimensão econômica e comercial é o principal destaque do período do Brasil à frente do bloco, disse o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes.

O sr. está frustrado com o adiamento do acordo com a UE?

Não. É normal. A coisa está bem encaminhada. Vamos chegar a um acordo, sim.

O Brasil encerrou seu semestre na presidência do Mercosul. O que o sr. destaca do período?

De um lado, a retomada da vocação do Mercosul como um bloco econômico-comercial. De outro, a reafirmação do pilar democrático.

O período brasileiro começou com a suspensão da Venezuela. É a isso que o sr. se refere quando fala em pilar democrático?

Cumprimos algo que estava previsto no acordo constitutivo do Mercosul: os países, para fazer parte do bloco, têm de respeitar as instituições democráticas. Na Venezuela, é notória a ruptura das regras democráticas. Isso é reconhecido inclusive por um governo mais à esquerda, que é o uruguaio. Em decorrência disso, ela foi suspensa. Esperamos que volte logo.

Em que o Mercosul avançou na frente comercial e econômica?

O Mercosul voltou a se concentrar muito ativamente nas questões de intercâmbio entre seus países. Por outro lado, buscamos atingir o outro objetivo do bloco, que é fazer dele uma plataforma de inserção dos países que o compõem na economia mundial.

Mas o comércio dentro do bloco ainda tem muitos entraves.

Nosso primeiro esforço foi identificar quais barreiras existiam. Encontramos 78. E já conseguimos eliminar mais de 80%. Mas o Mercosul continua sendo uma zona de livre-comércio imperfeita. Pelo fato, por exemplo, de o açúcar não estar incluído no bloco. E, no caso dos automóveis, pelo fato de termos um comércio administrado.

E do Mercosul para fora? O que há em negociação?

Tivemos em abril uma reunião dos países do Mercosul com os da Aliança para o Pacífico e definimos um roteiro de ações para aproximar as economias. Já vamos ter em 2019 tarifa zero. O acordo Mercosul-Egito entrou em vigor. Trocamos ofertas com o Efta (Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein) e esperamos para o primeiro trimestre a vinda de uma delegação canadense.

E o acordo com a Coreia do Sul? Há resistência da indústria?

Obtivemos em novembro autorização para negociar acordo com a Coreia do Sul. A consulta que fizemos com o setor privado revelou que temos grande interesse em acesso à agricultura e teríamos problemas com a concorrência com produtos industriais deles em alguns setores de nossa indústria. Por isso, decidimos começar a negociação sem determinar de antemão se vai ser uma liberalização ampla ou com linhas tarifárias.

Qual o resultado de sua recente viagem ao Sudeste Asiático?

Tive uma reunião com chanceleres da Asean, que são 11 países, um polo dinâmico e de grande crescimento. Da parte deles, há interesse, mas também alguma dificuldade em negociar em bloco. Por isso estamos conversando um a um. O que está mais próximo e adiantado é Cingapura. Além disso, estamos interessados em ampliar acordos com o México e a Índia. 

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