Fabio Motta/ Estadão
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) Fabio Motta/ Estadão

BNDES avalia venda de suas ações da Petrobrás; oferta pode movimentar R$ 24 bi

Banco deve se desfazer dos papeis com direito a voto; presidente do BNDES colocou a venda de ações como uma das metas de sua gestão

O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2019 | 15h13
Atualizado 13 de dezembro de 2019 | 19h50

SÃO PAULO e RIO - O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) iniciou na quinta-feira, 12, os procedimentos para fazer uma megaoferta de ações da Petrobrás, numa operação que poderá chegar a R$ 24 bilhões, se consideradas as cotações atuais. O anúncio de que o banco tem a intenção de vender “até a totalidade” das ações ordinárias (ON, com voto) da petroleira, feito pela Petrobrás na manhã desta sexta-feira, 13, levou à queda de 4,69% nesses papéis na B3. A venda é esperada para ocorrer até março, apurou a “Coluna do Broadcast”, da Agência Estado.

Segundo fontes,  o início dos procedimentos para fazer a megaoferta, como a contratação de bancos de investimentos, foi autorizado pelo Conselho de Administração do BNDES em reunião na quinta-feira, 12, mas a operação ainda requer aval final do colegiado. O tema voltará ao Conselho, que decidirá sobre o consórcio de bancos que participará da oferta e a banda de preços de venda – ao todo, oito bancos deverão trabalhar na oferta, que poderá incluir papéis negociados nos Estados Unidos.

O anúncio já era esperado. A aceleração da venda das ações em posse do BNDES é uma das metas da gestão do presidente do banco, Gustavo Montezano, que já sinalizou publicamente que, em três anos, pretende reduzir a carteira total, hoje de R$ 114 bilhões, em cerca de 80%. “Joia da coroa”, com 40,7% do valor total, a fatia na Petrobras é o alvo preferencial dessa estratégia de vendas, que não ficará apenas nesse movimento.

Na próxima semana, o BNDES venderá, também via oferta de ações, sua participação no frigorífico Marfrig e embolsará cerca de R$ 2 bilhões. No início de 2020, está prevista a venda de metade de sua fatia na JBS – cerca de R$ 8 bilhões. O cronograma de 2020 inclui ainda as vendas das ações da siderúrgica Tupy e da empresa de energia Copel.

Na reunião de quinta-feira, 12, o Conselho do BNDES também autorizou a venda, por meio da mesa de operações, nos pregões diários, de “até a totalidade” das ações preferenciais (PN, sem voto) da Petrobrás, segundo as fontes ouvidas pelo Estadão/Broadcast. A autorização vale por seis meses, mas dificilmente o banco de fomento conseguirá se desfazer de toda a participação bilionária na petroleira em 2020.

Procurado, o BNDES informou que “não comenta sua estratégia no âmbito de suas companhias investidas”.

Embora a venda de ações em posse do banco fosse esperada, a queda nas cotações dos papéis da Petrobrás (a PN caiu 3,20%, um pouco menos do que a ON) nesta sexta-feira, 13, chamou atenção porque, no mesmo pregão, o petróleo fechou na maior cotação desde setembro, com alta de 1,5%, a US$ 60,07 o barril em Nova York – normalmente, as ações das petroleiras sobem quando o petróleo sobe.

A queda da Petrobrás foi uma reação à expectativa do aumento da circulação de ações no mercado. Ainda assim, analistas e gestores veem o movimento do BNDES com bons olhos, diante da perspectiva de bons resultados financeiros da petroleira e do aumento do apetite de investidores por ações, num ambiente de busca por ativos com maiores retornos financeiros, diante do nível historicamente baixo dos juros.

Um gestor responsável pela administração de bilhões de reais, que pediu para não se identificar, aposta que haverá apetite pela oferta do BNDES. O executivo reconheceu que R$ 24 bilhões é “bastante dinheiro”, mas lembrou que a ação é “muito líquida”, ou seja, é muito negociada no mercado e, normalmente, atrai investidores estrangeiros. Nas contas do gestor, só a indústria de fundos de ações tem potencial para captar mais R$ 100 bilhões em 2020, garantindo demanda pelos papéis que o BNDES quer vender.

João Luiz Zuneda, analista da MaxiQuim Assessoria de Mercado, destacou que, dado o tamanho da oferta, “a forma de venda é importante para não forçar para baixo” as cotações, mas a tendência é haver demanda. “Os resultados financeiros da Petrobrás estão melhorando e vão aumentar em 2020”, disse Zuneda.

Para o estrategista Renan Sujii, da Harrison Investimentos, o aumento de papéis no mercado poderá levar a alterações nos preços, mas será um “movimento de acomodação natural” diante da “troca de mãos das ações”. “O papel sairá de um player grande (o BNDES) e será diluído. Mas existe demanda de mercado. É uma empresa (a Petrobrás) que tem muita liquidez e tem como o mercado absorver”, afirmou Sujii./ Vinicius Neder, Fernanda Guimarães, Fabiana Holtz, Wagner Gomes e Iander Porcella

 

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Oferta de ações reduzirá relação entre BNDES e Petrobras, aprofundada nos governos do PT

Pelas cotações do pregão de quinta-feira, a oferta total poderia chegar a R$ 24 bilhões

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2019 | 19h49

RIO - Se concretizar por inteiro a intenção de vender toda sua participação em ações ordinárias (ON, com voto) no capital da Petrobrás, como anunciado na sexta-feira, 13, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) dará mais um passo no sentido de diminuir sua relação umbilical com a petroleira estatal, construída nos governos do PT. Pelas cotações do pregão de quinta-feira, a oferta total poderia chegar a R$ 24 bilhões, pouco menos da metade do valor total da fatia do BNDES na Petrobrás, que foi formada por várias decisões passadas de governo e hoje está avaliada em R$ 52 bilhões, pelos dados do terceiro trimestre.

O auge da relação entre BNDES e Petrobrás foi atingido no governo da ex-presidente Dilma Rousseff, a partir de uma combinação de elevada participação acionária e dívida bilionária. Em 2013, a participação do banco na petroleira atingiu o máximo de 17,2% do capital total – atualmente, é de 13,9% –, ao mesmo tempo em que, a partir de 2009, com as políticas para enfrentar a crise internacional de 2008, o BNDES ganhou destaque como credor da estatal.

O primeiro grande passo atrás nessa relação foi dado pelo pagamento antecipado da dívida da Petrobras com o banco, dentro de sua estratégia de redução do endividamento, iniciada ainda no governo Michel Temer. Agora, o caminho será reduzir a participação do BNDES no capital da petroleira – o presidente do banco, Gustavo Montezano, colocou a venda das ações como uma das metas de sua gestão.

A fatia bilionária na Petrobras foi formada por várias decisões de governo. Em 2006, a participação total do BNDES na petroleira era de 7,6%. Um salto foi dado na megacapitalização de 2010, quando a petroleira levantou R$ 120 bilhões nos mercados com a emissão de novas ações, na maior operação do tipo da história mundial. O banco gastou R$ 24,7 bilhões na oferta, evitando, assim, que a União e suas partes relacionadas tivessem a participação acionária na estatal reduzida. A fatia do BNDES na Petrobras subiu para 13,3%, no fim de 2010.

Outro salto seria dado na virada de 2012 para 2013, numa das ações de maior destaque no rol da “contabilidade criativa” do primeiro governo Dilma. O então Ministério da Fazenda fez uma triangulação financeira entre o Fundo Soberano do Brasil (FSB), a Caixa e o BNDES, engordando em R$ 15,8 bilhões os cofres do Tesouro Nacional em dezembro, com o objetivo de cumprir a meta fiscal daquele ano. Na operação, o BNDES comprou ações da Petrobras que pertenciam ao FSB e pagou com títulos públicos – foram R$ 8,84 bilhões –, elevando sua participação na petroleira de 15%, no encerramento de 2011, para 17,2%.

O caminho de volta na relação simbiótica pelo lado da participação acionária também começou no governo Temer. Em 2018, o BNDES vendeu R$ 4,5 bilhões em ações da estatal e, no primeiro trimestre deste ano, foram R$ 3,6 bilhões. Daí a fatia caiu do auge de 17,2% do capital total para os 13,9% atuais. Com a oferta bilionária de ações ON, o ritmo desse processo seria acelerado.

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