BNDES decide abandonar a política de criação de ‘campeãs nacionais’

Em entrevista ao ‘Estado’, Luciano Coutinho, presidente do banco, afirma que o número de setores com potencial de desenvolver líderes globais é ‘limitado’ e que essa agenda foi concluída

Raquel Landim, Ricardo Leopoldo e Irany Tereza - O Estado de S.Paulo,

22 de abril de 2013 | 00h30

SÃO PAULO - O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) abandonou a controvertida política de criação de "campeãs nacionais". A informação é do presidente da instituição, Luciano Coutinho, que não concorda com o uso desse termo. "A promoção da competitividade de grandes empresas de expressão internacional é uma agenda que foi concluída", disse Coutinho, em entrevista exclusiva na sexta-feira, na sede do BNDES em São Paulo.

Ele afirma que a política tinha "méritos" e chegou "até onde podia ir", porque o número de setores em que o País tem potencial para projetar empresas líderes é "limitado". O economista citou os segmentos de petroquímica, celulose, frigoríficos, siderurgia, suco de laranja e cimento. "Não enxergo outros com o mesmo potencial", frisou. Segundo ele, o BNDESPar, braço de investimentos do banco em empresas, está focado em setores inovadores, como tecnologia da informação, farmacêutico e bens de capital.

O incentivo às "campeãs nacionais" começou há seis anos, no governo Lula, quando Coutinho já ocupava o cargo de presidente do BNDES. Com empréstimos em condições generosas e compras de participação, o banco injetou cerca de R$ 18 bilhões nos frigoríficos JBS e Marfrig, na Lácteos Brasil (LBR), na Oi e na Fibria, conforme levantamento feito pelo Estado. Algumas dessas empresas estão em situação financeira delicada, como a LBR, que pediu recuperação judicial, e o Marfrig.

Ele afirmou que "poucas instituições são tão transparentes quanto o BNDES" e garantiu que divulga todas as operações, respeitando o sigilo bancário. Por isso, não comentou a exposição do banco às empresas de Eike Batista, que sofrem uma crise de confiança. Disse apenas que está "tranquilo".

Coutinho estima que a taxa de investimento vai chegar a 20% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014, último ano do mandato da presidente Dilma Rousseff. O indicador ainda estaria distante dos 25% considerados ideais para um crescimento sustentável, mas significaria a "retomada dos investimentos". A seguir, os principais trechos da entrevista:

A alta de juros promovida pelo Banco Central pode desestimular os investimentos?

Luciano Coutinho - A estabilidade é a mãe de toda a virtude em qualquer economia, especialmente a brasileira. O movimento do BC foi adequado, porque sinalizou a intenção de não permitir o descontrole inflacionário. Isso é positivo para o crescimento do País. É preciso entender que as decisões de investimento têm um período médio de maturação de 18 meses - em alguns casos, chega a 4 ou 5 anos. Nesse sentido, é positivo manter a inflação sob controle. Até porque não é necessário produzir uma recessão para coordenar as expectativas de inflação. 

Qual é a sua percepção sobre os investimentos no primeiro trimestre?

Luciano Coutinho - A recuperação dos investimentos parece ter sido muito forte em janeiro e fevereiro. Ainda não temos os dados de março, mas os indicadores preliminares são de que o impulso se manteve. A expectativa de todos os analistas qualificados é de aumento do investimento no primeiro trimestre entre 4,5% e 9%. Parte disso se deve a fatores sazonais, como as vendas de máquinas agrícolas e caminhões, mas, mesmo descontando esses impactos, os nossos números mostram que há uma recuperação do investimento industrial. O investimento vai crescer pelo menos 5% este ano.

E em 2014? Qual deve ser a taxa de investimento do fim do governo Dilma?

Luciano Coutinho - A tendência do investimento é acelerar no ano que vem, porque o programa de concessões tende a ter os efeitos concentrados em 2014 e 2015. Acredito que o investimento pode crescer 8% em 2014, o que levaria a uma taxa de 20% do PIB. 

Mas ainda não é uma taxa capaz de garantir um crescimento sustentável.

Luciano Coutinho - Não é. Mas devemos lembrar que o investimento estava caminhando para 20% do PIB em 2008, quando o Lehman Brothers quebrou. A economia mundial está em crise desde 2009. Em 2010, houve um forte esforço de recuperação, puxado pelos países em desenvolvimento, mas os países desenvolvidos continuaram em crise, que recrudesceu na Europa. O Brasil está retomando uma trajetória virtuosa em que o crescimento volta a ser liderado pelos investimentos.

Qual é a sua expectativa para o crescimento do PIB em 2013 e 2014?

Luciano Coutinho - No ano que vem, o PIB pode crescer tranquilamente 4,5%. Para este ano, no mínimo 3%, podendo ser 3,5%.

O IBGE está estudando mudanças na metodologia do cálculo do PIB. Na sua opinião, os investimentos e o crescimento estão subestimados no Brasil?

Luciano Coutinho - Sim. A metodologia avançou muito nos Estados Unidos e na Europa e nós estávamos relativamente defasados. Hoje sabemos que uma parcela significativa do investimento empresarial é para tecnologia da informação. Às vezes, isso é contabilizado como investimento, mas às vezes como serviço ou leasing. Acredito que o IBGE já se moveu para fazer um ajuste nesse campo, mas há outras áreas em que uma avaliação metodológica deve ser efetuada.

Quais?

Luciano Coutinho - No Brasil, o peso da compra de máquinas e equipamentos é muito forte nos investimentos, o que destoa um pouco das médias internacionais. Não tenho certeza se todos os investimentos em construção são corretamente capturados pela metodologia. Existem muitos investimentos em construção de pequena escala. Mas não quero me estender nessas considerações porque tenho um enorme respeito ao IBGE, e essa é uma questão totalmente técnica.

Uma mudança no cálculo do PIB pode gerar desconfiança em relação aos dados, como ocorre na Argentina?

Luciano Coutinho - Acredito que não. O País já está numa fase de maturidade em que não vai acreditar que os investimentos aumentaram por causa de uma mudança de metodologia. Se o investimento melhorar, a tendência vai aparecer em qualquer patamar.

O senhor está satisfeito com o atual nível do câmbio?

Luciano Coutinho - Através de um conjunto de medidas, o Banco Central inverteu uma trajetória de apreciação do câmbio, que era muito preocupante. Foi feito um ajuste no câmbio, que melhorou a competitividade. Mas foi feito com cautela e hoje chegamos a um patamar que é compatível com a manutenção da estabilidade. Alguns formadores de preço estavam querendo projetar um câmbio de R$ 2,20 a R$ 2,25, que poderia ter efeitos desestabilizadores sobre a inflação.

O BNDES vai precisar de uma capitalização no segundo semestre?

Luciano Coutinho - O banco tem um nível capitalização bastante confortável: 15,4%. Em relação ao índice de Basileia, estamos folgados. Considerando o aumento da demanda por infraestrutura, a base de capital terá de ser reforçada. Mas quero sublinhar que o BNDES gera lucro suficiente para a sua capitalização. Temos ajudado o Tesouro Nacional a suportar o superávit primário, pagando dividendos. O entendimento é que o Tesouro nos forneça capital nos momentos em que isso se torna necessário. Mas essa não é uma questão urgente.

O BNDESPar teve queda no lucro de 93%. As apostas foram equivocadas?

Luciano Coutinho - O ano passado foi ruim para todo o mercado de capitais. Mas o BNDESPar teve bom resultado, se não consideramos a necessidade de registrar a preços de mercado as ações nas empresas em que possui mais de 20% de capital. Tivemos perda de valor das ações da Eletrobrás. Quero ressaltar que isso afeta o patrimônio, mas não é perda de caixa. Só seria se vendêssemos as ações. O fato de não registrar essa perda do BNDESPar no BNDES, para não afetar o balanço do banco, criou toda essa celeuma. Não foi um efeito financeiro efetivo, mas o que chamamos de marcação a mercado, que pode ser revertida no futuro, à medida que a Eletrobrás se recuperar. E vamos ajudar com o que estiver ao nosso alcance.

Mas isso levou a Moody’s a rebaixar a classificação de risco do BNDES. Vai prejudicar as captações externas do banco?

Luciano Coutinho - Essa classificadora de risco concedia um rating ao BNDES maior que o rating da República e corrigiu. As outras classificadoras mantiveram os ratings iguais. Nas nossas emissões, a referência são os papéis do Tesouro, e sempre pagamos um pouquinho a mais. Era inconsistente um rating superior. O BNDES continua mantendo uma posição favorável em relação a outros emissores, que não vou nominar. Temos um balanço sólido e com bom retorno para os acionistas.

O BNDES está abandonando a política de campeãs nacionais?

Luciano Coutinho - É preciso corrigir esse termo. A promoção da competitividade de grandes empresas de expressão internacional é uma agenda que foi concluída. É uma política que tinha méritos e chegou até onde poderia ir. Até porque o número de setores em que o Brasil tem competitividade para projetar empresas eficientes no cenário internacional é relativamente limitado a commodities e algumas pseudocommodities. E já fizemos isso nesses setores: petroquímica, celulose, frigoríficos, parte da siderurgia, suco de laranja, cimento. Não enxergo outros setores com o mesmo potencial. Nos últimos anos, o BNDESPar tem se concentrado no fomento a novas empresas em setores intensivos em inovação tecnológica. Vejo um potencial interessante no complexo saúde e no setor farmacêutico. Há vários anos, o BNDESPar já vem trabalhando na área de tecnologia da informação. Também há iniciativas importantes nas empresas supridoras de bens de capital. Essa agenda combina desenvolvimento e inovação e é a tônica da política que vem sendo praticada nos últimos anos.

A política de criação de multinacionais decepcionou?

Luciano Coutinho - Não. É claro que temos de amadurecer os resultados em alguns segmentos. A concorrência é global e muito forte. O nosso potencial possível foi realizado. Foi bem-sucedido em todos os setores? É uma resposta para o futuro, porque o jogo continua. Não posso dizer que consegui e me deitar sobre os louros. Construímos as bases e agora vamos acompanhar.

O governo está se preparando para divulgar o custo dos subsídios dos empréstimos do Tesouro ao BNDES. O senhor pode antecipar os valores?

Luciano Coutinho - Não quero adiantar, porque ainda não li o trabalho técnico. O Ministério da Fazenda, respondendo ao TCU (Tribunal de Contas da União), produziu uma metodologia de cálculo. Ainda não fizemos uma análise técnica, mas tenho confiança de que é consistente. Eu queria chamar a atenção para os benefícios dos empréstimos do BNDES. Olhar só os custos é uma avaliação enviesada. Ao estimular os investimentos, os empréstimos do BNDES geram impostos, emprego, renda e elevam a produtividade da economia. Temos estudos sobre os efeitos positivos e os divulgaremos oportunamente.

Qual é o tamanho da exposição do BNDES ao grupo de Eike Batista?

Luciano Coutinho - O BNDES está tranquilo em relação ao grupo EBX. Não gostaria de fazer comentários adicionais.

O banco é criticado por ser pouco transparente. Como o senhor reage?

Luciano Coutinho - Poucas instituições têm tanta transparência como o BNDES. Nós publicamos todas as nossas operações, de crédito ou de mercado de capitais. Recentemente tornamos nosso site ainda mais amigável a consultas. Consideramos que informar a opinião pública é um dever do servidor público e buscamos responder, preservado o sigilo bancário das empresas.

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