Robson Fernandjes/AE
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BNDES diz que vê mérito no negócio

O presidente do banco, Luciano Coutinho, admite que o processo está sendo analisado; lideranças do PSDB no Senado criticam operação

Alexandre Rodrigues, Marcelo Rehder, Andrea Jubbé Vianna e Lisandra Paraguassu, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2011 | 00h00

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) confirmou que avalia participar com até 2 bilhões de euros (R$ 4,5 bilhões) da fusão entre o Grupo Pão de Açúcar e o Carrefour. Em curta nota, o banco informou no fim da manhã que a proposta ainda depende da aprovação da diretoria.

"O processo está enquadrado (sob análise) porque o banco enxerga que há mérito nele. A gente considera que é uma operação de natureza não hostil, que vamos analisar e podemos esperar que ela se resolva bem", afirmou o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, ao chegar para o evento Destaque Agência Estado Empresas 2011 ontem à noite, em São Paulo.

Ao ser perguntado se a operação sairia sem o BNDES, Coutinho limitou-se a dizer: "Sem comentários". Em Assunção, no Paraguai, onde participa da reunião do Mercosul, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi perguntado sobre a injeção de recursos do banco estatal na operação. "O BNDES fornece recursos para todos os grupos privados que necessitam no Brasil. O Ministério da Fazenda não fica fiscalizando a liberação de dinheiro. A operação não precisa ser chancelada", afirmou.

Críticas. A possibilidade de o BNDES financiar a fusão entre o Pão de Açúcar e o Carrefour foi criticada por lideranças do PSDB no Senado. "Duas redes de varejo se casam e quem dá o presente é o Brasil, ou melhor, o contribuinte?", questionou o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP).

Para o tucano, o repasse de recursos do banco de fomento para viabilizar a fusão entre duas empresas, sobretudo quando uma delas é uma multinacional, não se legitima. Uma ajuda dessa natureza somente se justificaria, disse Ferreira, em negócios que contribuiriam para o avanço do País, como no setor de política industrial ou ciência e tecnologia. "Daqui a pouco o BNDES vai contribuir para a fusão de salões de beleza", ironizou.

Para o líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR), o auxílio do BNDES ao negócio "se trata de uma transferência de dinheiro público para o setor privado com juros subsidiados, e quem subsidia é o contribuinte". Dias explica que o BNDES capta os recursos a taxas de 13% ao ano, em média, e depois empresta à iniciativa privada com juros de 4%, em média.

Os senadores devem votar hoje uma medida provisória que transfere R$ 55 bilhões do Tesouro Nacional para o BNDES, a fim de ampliar a capacidade de financiamento do banco. Para Álvaro Dias, estabeleceu-se uma "reserva de mercado" no País em que os "investidores de primeira classe" são privilegiados com empréstimos do banco de fomento.

Mas fontes ligadas à negociação garantem que não haverá dificuldades para a aprovação do negócio em caráter prioritário, já que a operação é vista com bons olhos no governo. A justificativa do BNDES vem da preocupação do governo com a ameaça de desnacionalização do varejo no Brasil, principalmente o de alimentos, com a perspectiva de o grupo francês Casino assumir o controle da empresa de Abilio Diniz em 2012.

A nota do BNDES destacou que o apoio à "internacionalização do Pão de Açúcar" ajudaria o grupo a conquistar um "espaço estratégico" no Carrefour.

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