Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

BNDES está deixando de ser um banco de beneficiários para ser um banco de clientes

BNDES está criando atividades de produção e de consumo onde não existiam, bancando startups em inovação e tecnologias úteis ao desenvolvimento

Ernesto Lozardo*, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 04h00

Em meio a tantas dificuldades econômicas e sociais por conta da pandemia: empresas encerraram suas atividades ou foram à falência, a pobreza e o desemprego permanecem elevados e há carência de vacinas, no entanto, há inúmeros avanços institucionais sendo realizados. Um deles é o surgimento de um novo BNDES, rompendo as amarras de um passado recente e deixando de ser um banco de beneficiários para ser um banco de clientes. 

A exemplo de outros bancos de desenvolvimento do mundo, com parceiros nacionais e novos instrumentos de financiamento, o BNDES está criando atividades de produção e de consumo onde não existiam, bancando startups em inovação e tecnologias úteis ao desenvolvimento. 

A escassez do crédito é uma realidade. No entanto, o BNDES está fazendo com que ele chegue àqueles que os bancos tradicionais não alcançam, como as Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPMs), motoristas de Uber, fornecedores de alimentação nas comunidades, padeiros e confeiteiros, e em localidades do Nordeste com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). É inegável o grande impacto social dessas iniciativas. 

Ademais, embora seja um banco de fomento, teoricamente avesso ao risco empresarial e de mercado, o BNDES está assumindo-o, gerando lucro, tendo como norte a preservação do capital próprio e menor dependência de recursos do Tesouro Nacional. Está investindo em projetos que gerem externalidades sociais positivas, vinculados aos princípios Ambientais, Sociais e de Governança (ASG). 

O governo Temer deu o primeiro passo: terminou no BNDES o crédito subsidiado. Restou modificar a concepção sobre os investimentos da BNDESpar, a qual consistia em agregar empresas nacionais sólidas com potencial de se tornarem globais. Um equívoco, pois elas poderiam obter recursos financeiros no mercado internacional, ao invés de juros subsidiados. Muitas delas permaneceram na carteira da BNDESpar. No entanto, há um processo de desinvestimento. 

Em 2019, ela correspondia a R$ 118 bilhões e, em 2020, foi reduzida para R$ 68 bilhões – um desinvestimento de 58%. Antes dessa mudança, as ações da Petrobrás representavam 45% do valor da carteira, ou seja, R$ 53 bilhões. Para um patrimônio líquido de R$100 bilhões, qualquer forte queda no preço internacional do petróleo causaria perdas expressivas ao banco. Atualmente, elas representam 37%. 

O Conselho Monetário Nacional (CMN) estabelece que o valor de uma ação não pode ultrapassar 25% do valor total da carteira. As ações da Petrobrás representavam quase o dobro desse limite. Há outras ações que deverão deixar a BNDESpar, como as da JBS e da Eletrobrás, que representam 25% e 12%, respectivamente. 

O desinvestimento possibilitará novas oportunidades, ampliar o leque de empresas e atender àquelas com potencial de crescimento e que precisem da engenharia financeira do banco. 

A recessão do ano passado causou enorme falta de crédito, vitimando principalmente as MPMs. Estas são as principais geradoras de empregos. No entanto, o BNDES, num grande esforço, formou um sindicato de instituições financeiras e não financeiras e fundos garantidores (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Sebrae, FIDCs e outros) para atender à demanda de crédito dessas empresas. Foi a salvação da lavoura. Muitas estão retornando às suas atividades.

O BNDES não faz milagres, nunca fez. No entanto, é uma instituição que patrocinou a fase do “milagre brasileiro”, no início da década de 70. Para repetir os feitos do passado, além das inúmeras reformas econômicas, institucionais e de privatizações em curso, falta ao Brasil o planejamento estratégico de desenvolvimento que triplique a produtividade da produção em uma geração, por meio da educação profissionalizante, e realize uma ampla abertura da economia e plena inserção nas cadeias globais de valor. 

*PROFESSOR DE ECONOMIA DA EAESP-FGV; AUTOR DO LIVRO ‘OK, ROBERTO. VOCÊ VENCEU! O PENSAMENTO ECONÔMICO DE ROBERTO CAMPOS’ (EDITORA TOPBOOKS, 2018)

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